Esta página tem por finalidade colocar à disposição dos meus alunos da Escola Teológica Rev. Celso Lopes textos referentes à matéria título do blog

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Aula 7 - A extensão do cânon do Antigo Testamento


A aceitação inicial dos 22 livros (correspondentes exatamente aos nossos 39) das Escrituras hebraicas não resolveu a questão de uma vez por todas. Estudiosos de eras posteriores, nem sempre totalmente conscientes dos fatos a respeito dessa aceitação original, tornavam a levantar questões concernentes a determinados livros. A discussão deu ensejo a que surgisse uma terminologia técnica. Os livros bíblicos aceitos por todos eram chamados "homologoumena" (lit., falar como um). Os livros bíblicos que em certa ocasião tivessem sido questio¬nados por alguns foram classificados como "antilegomena" (falar contra). Os livros não-bíblicos rejeitados por todos foram intitulados "pseudepígrafos" (falsos escritos). Uma quarta categoria compreendia livros não-bíblicos aceitos por alguns, mas rejeitados por outros, dentre os quais os livros questionáveis, chamados "apócrifos" (escondidos ou duvidosos). Nosso tratamento girará em torno dessa classificação em quatro tipos.

Os livros aceitos por todos > homologoumena
Acanonicidade de alguns livros jamais foi desafiada por nenhum dos grandes rabis da comunidade judaica. Desde que alguns livros foram aceitos pelo povo de Deus como documentos produzidos pela mão dos profetas de Deus, continuaram a ser reconhecidos como detentores de inspiração e de autoridade divina pelas gerações posteriores. Trinta e quatro dos 39 livros do Antigo Testamento podem ser classificados como "homologoumena". Os cinco excluíveis seriam Cântico dos Cânticos, Eglesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Visto, porém, que nenhum desses livros foi alvo de objecão muito séria, nossa atenção pode voltar-se para os outros livros.

Os livros rejeitados por todos > pseudepígrafos
Grande número de documentos religiosos espúrios que circulavam entre a antiga comunidade judaica são conhecidos como "pseudepígrafos". Nem tudo nesses escritos "pseudepigráficos” é falso. De fato, a maior parte desses documentos surgiu de dentro de um contexto de fantasia ou tradição religiosa, possivelmente com raízes em alguma verdade. Com frequência, a origem desses escritos estava na especulação espiritual a respeito de algo que não ficou bem explicado nas Escrituras canônicas.
As tradições especulativas a respeito do patriarca Enoque, por exemplo, sem dúvida são a raiz do livro de Enoque. De maneira semelhante, a curiosidade a respeito da morte e da glorificação de Moisés, sem dúvida alguma, acha-se por trás da obra Assunção de Moisés No entanto, essa especulação não significa que não exista verdade nenhuma nesses livros. Ao contrário, o Novo Testamento refere-se a verdades implantadas nesses dois livros (cf. Jd 14,15) e chega a aludir à penitência de Janes e Jambres (2Tm 3.8). Entretanto, esses livros não são mencionados como dotados de autoridade, como Escrituras inspiradas. A semelhança das citações que Paulo faz de alguns poetas não-cristãos, como Arato (At 17.28), Menânder (1Co 15.33) e Epimênides (Tt 1.12), trata-se tão somente de verdades verificáveis, contidas em livros que em si mesmos nenhuma autoridade divina têm. A verdade é sempre verdade, não importa onde se encontre, quer pronunciada por um poeta pagão, quer por um profeta pagão (Nm 24.17), por um animal irracional e mudo (Nm 22.28), ou mesmo por um demónio (At 16.17).
Observe que nenhuma fórmula como "está escrito" ou "segundo as Escrituras" é utilizada quando o escritor sagrado se refere a tais obras “pseudoepigráficas”. É possível que o fato mais perigoso a respeito desses falsos escritos é que alguns elementos da verdade são apresentados com palavras de autoridade divina, num contexto de fantasias religiosas que em geral contêm heresias teológicas. É importante que nos lembremos de que Paulo cita apenas aquela faceta da verdade, e não o livro pagão como um todo, como conceito a que Deus atribuiu autoridade e fez constar do Novo Testamento.

A natureza dos pseudepígrafos
Os pseudepígrafos do Antigo Testamento contêm os extremos da fantasia religiosa judaica expressos entre 200 a.C. e 200 d.C Alguns desses livros são inofensivos, teologicamente (e.g., SI 151), mas outros contêm erros históricos e claras heresias. Desafia-se com vigor a genuinidade desses livros, pelo fato de haver quem afirme que foram escritos por autores bíblicos. Os "pseudepígrafos" refletem o estilo literário vigente num período muito posterior ao encerramento dos escritos proféticos, de modo que muitos desses livros imitam o estilo apocalíptico de Ezêquiel, de Daniel e de Zacarias — ao referir-se a sonhos, visões e revelações. No entanto, diferentemente desses profetas, os "pseudepígrafos" com frequência tornam-se mágicos. Os "pseudepígrafos" ressaltam, sobretudo, um brilhante futuro messiânico, cheio de recompensas para todos quantos vivem em sofrimento e abnegação. Sob a superfície existe, com frequência, um motivo religioso inocente, porém desencaminhado. Todavia, a infundada reivin¬dicação de autoridade divina, o caráter altamente fantasioso dos acontecimentos e os ensinos questionáveis (e até mesmo heréticos) levaram os pais do judaísmo a considerá-los espúrios. O resultado, pois, é que tais livros foram corretamente rotulados de "pseudepígrafos".

O número dos pseudepígrafos
A coleção modelar de "pseudepígrafos" contém dezessete livros. Acrescente-se o salmo 151, que se encontra na versão do Antigo Testamento feita pelos Setenta. A lista principal é a seguinte:
Lendários > 1. O Livro do Jubileu; 2.Epístola de Aristéias; 3. O Livro de Adão e Eva; 4. O Martírio de Isaías.
Apocalíptico > 1. 1 Enoque; 2. O Testamento dos Doze Patriarcas; 3. O Oráculo Sibilino; 4. Assunção de Moisés; 5. 2 Enoque, ou Livro dos Segredos de Enoque; 6. 2 Baruque, ou Apocalipse Siríaco de Baruque (1 Baruque está relacionado entre os apócrifos); 7. 3 Baruque, ou Apocalipse Grego de Baruque.
Didáticos > 1. 3 Macabeus; 2. 4 Macabeus; 3. Pirque Abote; 4. A História de Aicar.
Poéticos > 1. Salmos de Salomão; 2. Salmo 151
Históricos > 1. Fragmentos de uma obra de Sadoque.

De modo nenhum essa lista é completa. Outros são conhecidos, mesmo alguns muito interessantes que vieram à luz quando da descoberta dos rolos do mar Morto. Dentre esses estão o “Gênesis apócrífo” e “Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas” e outros.


Os livros questionados por alguns > antilegomena
A natureza dos antilegomena
Os livros que originariamente eram aceitos como canônicos, e mesmo mais tarde também assim reconhecidos, tendo sido, porém, objeto de grave controvérsia entre os rabis, durante o processo de canonização, são de grande interesse para nós. Na aula anterior, vimos como todos os 39 livros do Antigo Testamento foram de início aceitos pelo povo de Deus, vindos dos profetas. Durante os séculos seguintes, surgiu e desenvolveu-se uma escola de pensamento diferente, dentro do judaísmo, que passou a questionar, entre outras coisas, a canonicidade de certos livros do Antigo Testamento que, antes, haviam sido canonizados. Por fim, tais livros foram reconduzidos ao cânon sagrado, por haver prevalecido a categoria de inspirados que lhes havia sido atribuída de início. No entanto, em vista de tais livros terem sido, nesta ou naquela época, difa¬mados por alguns rabis, passaram a chamar-se "antilegomena".

O número dos antilegomena
A canonicidade de cinco livros do Antigo Testamento foi questionada numa ou noutra época por algum mestre do judaísmo: Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Cada um deles tornou-se controvertido por razões diferentes, todavia, no fim prevaleceu a autoridade divina de todos estes cinco livros.

Cântico dos Cânticos. Alguns estudiosos da escola de Shammai consideravam esse cântico sensual em sua essência. Sabidamente, numa tentativa de abafar a controvérsia e defender a canonicidade do Cântico dos Cânticos, o rabino Aquiba escreveu o seguinte:
Livre-nos Deus! Ninguém jamais em Israel criou controvérsia acerca do Cântico dos Cânticos, alegando não tornar imundas as mãos [i.e., não ser canônico]; todas as eras somadas não equivalem ao dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel. Todos os Escritos são santos, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos.
Como bem observaram alguns, o simples fato de surgir uma declaração desse teor dá mostras de que alguém duvidou da pureza desse livro. Quaisquer que tenham sido as dúvidas voltadas para o alegado caráter sensual do Cântico dos Cânticos, foram mal orientadas. É muito mais provável que a pureza e a nobreza do casamento façam parte do propósito essencial desse livro. Sejam quais forem as questões levantadas a respeito das várias interpretações, não deve prevalecer nenhuma dúvida concernente à inspiração desse livro, desde que seja visto da perspectiva espiritual correta.

Eclesiastes. A objeção que às vezes é atirada contra esse livro é que ele parece cético. Alguns até o têm chamado O cântico do ceticismo. O rabino Aquiba dizia: "Se há algo em questão, a questão gira em torno só do Eclesiastes [e não do Cântico]". Não resta a menor dúvida a respeito do tom às vezes cético do livro: "Vaidade das vaidades [...] tudo é vaidade! [...] nada há novo debaixo do sol [...] na muita sabedoria há muito enfado; o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza" (Ec 1.2,9,18). O que se negligencia quando se acusa o livro de ceticismo é tanto o contex¬to dessas declarações quanto a conclusão geral do livro. Qualquer pes¬soa que procure a máxima satisfação "debaixo do sol" com toda certeza há de sentir as mesmas frustrações sofridas por Salomão, visto que a felicidade eterna não se encontra neste mundo temporal. Além do mais, a conclusão e o ensino genérico desse livro todo estão longe de ser céticos. Depois "de tudo o que se tem ouvido", o leitor é admoestado, "a conclusão é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos, pois isto é todo o dever do homem" (Ec 12.13). Tanto no que se refere ao Eclesiastes, como ao Cântico dos Cânticos, o problema básico é de interpretação do texto, e não de canonização ou inspiraçao.

Ester. Em vista da ausência do nome de Deus nesse livro, alguns pensaram que ele não fosse inspirado. Perguntavam, como podia um livro ser Palavra de Deus se nem ao menos trazia o seu nome? Além disso, a história do livro parece ter natureza puramente secular. O resultado é que se fizeram várias tentativas para explicar o fenômeno da aparente ausência do nome de Deus em Ester. Alguns acreditaram que os judeus persas não estavam na linhagem teocrática, e por isso o nome do Deus da aliança não se relacionava a eles. Outros sustentam que a omissão do nome de Deus é proposital, a fim de proteger o livro da possibilidade do plágio pagão: o nome de Deus ser substituído por um falso deus. Ainda outros conseguem ver o nome de Jeová ou Yavé (YHWH) num acróstico em quatro momentos cruciais na história, o que em si eliminaria a possibilidade.
Seja qual for a explicação, uma coisa é certa: a ausência do nome de Deus é compensada pela presença de Deus na preservação de seu povo. Ester e as pessoas que a cercavam eram devotas: prescreveu-se um jejum religioso, e Ester exerceu grande fé (Et 4.16). O fato de Deus haver concedido grande livramento, como narra o livro, serve de fundamento e razão da festa judaica do Purim (Et 9.26-28). Basta esse fato para demonstrar a autoridade atribuída ao livro dentro do judaísmo.

Ezequiel.Havia pessoas dentro da escola rabínica que pensavam que o livro de Ezequiel era antimosaico em seu ensino. A escola de Shammai, por exemplo, achava que o livro não estava em harmonia com a lei mosaica, e que os primeiros dez capítulos exibiam uma tendência para o gnosticismo. É claro, então, que, se houvesse contradições no livro, ele não poderia ser canônico. No entanto, não se verificaram contradições reais em relação à Tora. Parece que outra vez teria sido mera questão de interpretação, e não de inspiração.

Provérbios. A objeção a Provérbios centrava-se no fato de alguns dos ensinos do livro parecerem incompatíveis com outros provérbios. Falando dessa alegada incoerência interna, assim diz o Talmude: "Também procuraram esconder o livro de Provérbios, porque suas palavras se contra¬diziam entre si" ("Shabbath", 30b). Uma dessas supostas contradições encontra-se no capítulo 26, em que o leitor é exortado a responder e ao mesmo tempo não responder ao tolo segundo sua tolice: "Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja ele sábio aos seus próprios olhos" (Pv 26.4,5). Todavia, como outros rabis têm observado, o sentido aqui é que há ocasiões em que o tolo deve receber resposta de acordo com sua tolice, e outras ocasiões em que isso não deve ocorrer. Visto que as declarações estão explicitadas em versículos sucessivos, forma legítima da poesia hebraica, quem os redigiu, não viu nenhuma contradição. A frase qualificativa que indica se alguém deveria ou não responder a um tolo revela que as situações que exigem reações diferentes também são diferentes. Não existe contradição em Provérbios 26, nen nenhuma contradição ficou demonstrada em qualquer outra passagem de Provérbios, e, por isso, nada atravanca o caminho da canonicidade.

Os livros aceitos por alguns > apócrifos
O âmbito mais crucial de desacordo a respeito do cânon do Antigo Testamento entre os cristãos é o debate sobre os chamados livros apócrifos.
Tais livros são aceitos pelo católicos romanos como canônicos e rejeitados por protestantes e judeus. Na realidade, os sentidos da palavra “apocrypha” refletem o problema que se manifesta nas duas concepções de sua canonicidade. No grego clássico, a palavra apocrypha significava
"oculto" ou "difícil de entender". Posteriormente, tomou o sentido de esotérico, ou algo que só os iniciados podem entender, não os de fora. Pela época de Ireneu e de Jerônimo (séculos III e IV), o termo apocrypha veio a ser aplicado aos livros não-canônicos do Antigo Testamento, mesmo aos que foram classificados previamente como "pseudepígrafos". Desde a era da Reforma, essa palavra tem sido usada para denotar os escritos judaicos não-canônicos originários do período intertestamentário. A questão diante de nós é a seguinte: verificar se os livros eram escondidos a fim de ser preservados, porque sua mensagem era profunda e espi¬ritual, ou porque eram espúrios e de confiabilidade duvidosa.

Natureza e número dos apócrifos do Antigo Testamento
Há guinze livros chamados apócrifos (catorze se a Epístola de Jeremias se unir a Baruque, como ocorre nas versões católicas de Douai). Com exceção de 2 Esdras, esses livros preenchem a lacuna existente entre Malaquias e Mateus, e compreendem especificamente dois ou três séculos antes de Cris¬to. Vejam a seguir suas datas e classificação:

Os Livros Apócrifos
.Didáticos > 1. Sabedoria de Salomão (c 30 a.C); 2. Eclesiártico (132 a.C);
.Religioso > 3. Tobias (c 200 a.C);
.Romance > 4. Judite (c 150 a.C);
.Histórico > 5. 1 Esdras (c 150 – 100 a.C); 6. 1 Macabeus (c 110 a.C); 7. 2 Macabeus (c 119-70 a.C);
.Profético > 8. Baruque (c 150-50 a.C); 9. Epístola de Jeremias (c 300-100 a.C); 10. 2 Esdras (c 100 d.C);
Lendário > 11. Adições a Ester (140-110 a.C); 12. Oração de Azarias (séc I ou II a.C) também chamado der Cântico dos três Jovens; 13. Susana (séc I ou II a.C); 14. Bel e o Dragão (c 100 a.C); 15. Oração de Manassés (séc I ou II a.C).

Argumentos em prol da aceitação dos apócrifos do Antigo Testamento
Os livros apócrifos do Antigo Testamento têm recebido diferentes graus de aceitação pelos cristãos. A maior parte dos protestantes e dos judeus aceita que tenham valor religioso e mesmo histórico, sem terem, contudo, autoridade canônica. Os católicos romanos desde o Concílio de Trento têm aceito esses livros como canônicos. Mais recentemente, os católicos romanos têm defendido a ideia de uma deuterocanonicidade, mas os livros apócrifos ainda são usados para dar apoio a doutrinas extrabíblicas, tendo sido proclamados como livros de inspiração divina no Concílio de Trento. Outros grupos, como os anglicanos e várias igrejas ortodoxas, nutrem diferentes concepções a respeito dos livros apócrifos. A seguir apresentamos um resumo dos argumentos que em geral são aduzidos para a aceitação desses livros, na crença de que detêm algum tipo de canonicidade:

1. Alusões no Novo Testamento. O Novo Testamento reflete o pensamento e registra alguns acontecimentos dos apócrifos. Por exemplo, o livro de Hebreus fala de mulheres que receberam seus mortos pela ressurreição (Hb 11.35), e faz referência a 2 Macabeus 7 e 12. Os chamados apócrifos ou pseudepígrafos são também citados em sua amplitude pelo Novo Testa¬mento (Jd 14,15; 2Tm 3.8).

2. Emprego que o Novo Testamento faz da versão dos Septuaginta. A tradução grega do Antigo Testamento hebraico, em Alexandria, é conhecida como Septuaginta (LXX). É a versão mais citada pelos autores do Novo Testamento e pelos cristãos primitivos. A LXX continha os livros apócrifos. A presença desses livros na LXX dá apoio ao cânon alexandrino, mais amplo, do Antigo Testamento, em oposição ao cânon palestino, mais reduzido, que os omite.

3. Os mais antigos manuscritos completos da Bíblia. Os mais antigos manuscritos gregos da Bíblia contêm os livros apócrifos inseridos entre os livros do Antigo Testamento. Os manuscritos Aleph (X), A e B incluem esses livros, revelando que faziam parte da Bíblia cristã original.

4. A arte cristã primitiva. Alguns dos registros mais antigos da arte cristã refletem o uso dos apócrifos. As representações nas catacumbas às vezes se baseavam na história dos fiéis registrada no período intertestamentário.

5. Os primeiros pais da igreja. Alguns dos mais antigos pais da igreja, de modo particular os do Ocidente, aceitaram e usaram os livros apócrifos em seu ensino e pregação. E até mesmo no Oriente, Clemente de Alexandria reconheceu 2 Esdras como inteiramente canónico. Orígenes acrescentou Macabeus bem como a Epístola de Jeremias à lista de livros bíblicos canônicos. Ireneu mencionava O livro da sabedoria, e outros pais da igreja citavam outros livros apócrifos.

6. A influência de Agostinho. Agostinho (c. 354-430) elevou a tradição ocidental mais aberta, a respeito dos livros apócrifos, ao seu apogeu, ao atribuir-lhes categoria canônica. Ele influenciou os concílios da igreja, em Hipo (393 d.C.) e em Cartago (397 d.C), que relacionaram os apócrifos como canônicos. A partir de então, a igreja ocidental passou a usar os apócrifos em seu culto público.

7. O Concílio de Trento. Em 1546, o concílio católico romano do pós-Reforma, realizado em Trento, proclamou os livros apócrifos como canônicos, declarando o seguinte:
“O sínodo [...] recebe e venera [...] todos os livros, tanto do Antigo Testa¬mento como do Novo [incluindo-se os apócrifos] — entendendo que um único Deus é o Autor de ambos os testamentos [...] como se houvessem sido ditados pela boca do próprio Cristo, ou pelo Espírito Santo [...] se alguém não receber tais livros como sagrados e canônicos, em todas as suas partes, da forma em que têm sido usados e lidos na Igreja Católica [...] seja anátema”.
Desde esse concílio de Trento, os livros apócrifos foram considerados canônicos, detentores de autoridade espiritual para a Igreja Católica Romana.

8. Uso não-católico. As Bíblias protestantes desde a Reforma com frequência continham os livros apócrifos. Na verdade, nas igreja anglicanas os apócrifos são lidos regularmente nos cultos públicos, ao lado dos demais livros do Antigo e do Novo Testamento. Os apócrifos são também usados pelas igrejas de tradição ortodoxa oriental.

9. A comunidade do mar Morto. Os livros apócrifos foram encontrados entre os rolos da comunidade do mar Morto, em Qumran. Alguns haviam sido escritos em hebraico, o que seria indício de terem sido usados por judeus palestinos antes da época de Jesus.

Resumindo todos esses argumentos, essa postura afirma que o amplo emprego dos livros apócrifos por parte dos cristãos, desde os tempos mais primitivos, é evidência de sua aceitação pelo povo de Deus. Essa longa tradição culminou no reconhecimento oficial desses livros, no Concílio de Trento (1546), como se tivessem sido inspirados por Deus. Mesmo não-católicos, até o presente momento, conferem aos livros apócrifos uma categoria de paracanônicos, o que se deduz do lugar que lhes dão em suas Bíblias e em suas igrejas.

Razões por que se rejeita a canonicidade dos apócrifos
Os oponentes dos livros apócrifos têm apresentado muitas razões para excluí-los do rol de livros canónicos. Seus argumentos serão apresentados na mesma ordem dos argumentos levantados pelos que advogam a aceitação de um cânon maior.

1. A autoridade do Novo Testamento. O Novo Testamento jamais cita um livro apócrifo indicando-o como inspirado. As alusões a tais livros não lhes emprestam autoridade, assim como as alusões neotestamentárias a poetas pagãos não lhes conferem inspiração divina. Além disso, desde que o Novo Testamento faz citações de quase todos os livros canônicos do Antigo e atesta o conteúdo e os limites desse Testamento (omitindo os apócrifos), parece estar claro que o Novo Testamento indubitavelmente exclui os apócrifos do cânon hebraico. Josefo, o historiador judeu, rejeita expressamente os apócrifos, relacionando apenas 22 livros canônicos.

2. A tradução dos Septuaginta. A Palestina é que era o lar do cânon ju¬daico, jamais Alexandria, no Egito. O grande centro grego do saber, no Egito, não tinha autoridade para saber com precisão que livros pertenci¬am ao Antigo Testamento judaico. Alexandria era o lugar da tradução, não da canonização. O fato de a Septuaginta conter os apócrifos apenas comprova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos do período intertestamentário ao lado dos livros canônicos. Filo, o judeu alexandrino, rejeitou com toda a clareza a canonicidade dos apócrifos, no tempo de Cristo, assim como o judaísmo oficial em outros lugares e épocas. De fato, as cópias existentes da LXX datam do século IV d.C. e não comprovam que os livros haviam sido incluídos na LXX de épocas anteriores.

3. A Bíblia cristã primitiva. Os mais antigos manuscritos gregos da Bíblia datam do século IV. Seguem a tradição da LXX, que contém os apócrifos. Como foi observado acima, era uma tradução grega, e não o cânon hebraico. Jesus e os escritores do Novo Testamento quase sempre fizeram citações
da LXX, mas jamais mencionaram um livro sequer dentre os apócrifos. No máximo, a presença dos apócrifos nas Bíblias cristãs do século IV mostra tais livros eram aceitos, até certo ponto, por alguns cristãos, naquela époça. Isso não significa que os judeus, ou os cristãos como um todo, aceitaram esses livros como canônicos, isso sem mencionarmos a igreja universal, que nunca os teve na relação de livros canônicos.

4. A arte cristã primitiva. As representações artísticas não constituem base para apurar a canonicidade dos apócrifos. As representações pintadas nas catacumbas, extraídas de livros apócrifos, apenas mostram que os crentes daquela era estavam cientes dos acontecimentos do período in¬tertestamentário e os consideravam parte de sua herança religiosa. A arte cristã primitiva não decide nem resolve a questão da canonicidade dos apócrifos.

5. Os primeiros pais da igreja. Muitos dos grandes pais da igreja em seu começo, dos quais Melito, Orígenes, Cirilo de Jerusalém e Atanásio, depuseram contra os apócrifos. Nenhum dos primeiros pais de envergadu¬ra da igreja, anteriores a Agostinho, aceitou todos os livros apócrifos ca¬nonizados em Trento.

6. O cânon de Agostinho. O testemunho de Agostinho não é definitivo, nem isento de equívocos. Primeiramente, Agostinho às vezes faz supor que os apócrifos apenas tinham uma deuterocanonicidade (Cidade de Deus, 18,36), e não canonicidade absoluta. Além disso, os Concílios de Hipo e de Cartago foram pequenos concílios locais, influenciados por Agostinho e pela tradição da Septuaginta grega. Nenhum estudioso hebreu qualificado esteve presente em nenhum desses dois concílios. O especialista hebreu mais qualificado da época, Jerônimo, argumentou fortemente contra Agostinho, ao rejeitar a canocidade dos apócrifos. Jerônimo chegou a recusar-se a traduzir os apócrifos para o latim, ou mesmo incluí-los em suas versões em latim vulgar (Vulgata latina). Só depois da morte de Jerônimo, e praticamente por cima de seu cadáver, é que os livros apócrifos foram incorpora¬dos à Vulgata latina.

7. O Concílio de Trento. A ação do Concílio de Trento foi ao mesmo tempo polémica e prejudicial. Em debates com Lutero, os católicos romanos haviam citado Macabeus, em apoio à oração pelos mortos (v. 2 Macabeus 12.45,46). Lutero e os protestantes que o seguiam desafiaram a canonicidade desse livro, citando o Novo Testamento, os primeiros pais da igreja e os mestres judeus, em apoio. O Concílio de Trento reagiu a Lutero, canonizando os livros apócrifos. A ação do Concílio não foi apenas patentemente polêmica, foi também prejudicial, visto que nem todos os catorze (quinze) livros apócrifos foram aceitos pelo Concílio. Primeiro e Segundo Esdras (3 e 4 Esdras dos católicos romanos; a versão de Douai denomina l e 2 Esdras, respectivamente, os livros canônicos de Esdras e Neemias) e a Oração de Manassés foram rejeitados. A rejeição de 2 Esdras é particularmente suspeita, porque contém um versículo muito forte contra a oração pelos mortos (2 Esdras 7.105). Aliás, algum escriba medieval havia cortado essa seção dos manuscritos latinos de 2 Esdras, sendo conhecida pelos manuscritos árabes, até ser reencontrada outra vez em latim por Robert L. Bentley, em 1874, numa biblioteca de Amiens, na França.
Essa decisão, em Trento, não refletiu uma anuência universal, indisputável, dentro da Igreja Católica e na Reforma. Nessa exata época, o cardeal Cajetan, que se opusera a Lutero em Augsburgo, em 1518, publicou “Comentário sobre todos os livros históricos fidedignos do Antigo Testa¬mento”, em 1532, omitindo os apócrifos. Antes ainda desse fato, o cardeal Ximenes havia feito distinção entre os apócrifos e o cânon do Antigo Testamento, em sua obra “Poliglota complutense” (1514-1517). Tendo em mente essa concepção, os protestantes em geral rejeitaram a decisão do Concílio de Trento, que não tivera base sólida.

8. Uso não-católico. O uso dos livros apócrifos entre igrejas ortodoxas, anglicanas e protestantes foi desigual e diferenciado. Algumas os usam no culto público. Muitas Bíblias contêm traduções dos livros apócrifos, ainda que colocados numa seção à parte, em geral entre o Antigo e o Novo Testamento. Ainda que não-católicos façam uso dos livros apócrifos, nunca lhes deram a mesma autoridade canônica do resto da Bíblia. Os não-católicos usam os apócrifos em suas devocionais, mais do que na afirmação doutrinária.

9. Os rolos do mar Morto. Muitos livros não-canônicos foram descobertos em Qumran, dentre os quais comentários e manuais. Era uma bi¬blioteca que continha numerosos livros não tidos como inspirados pela Comunidade. Visto que na biblioteca de Qumram não se descobriram comentários nem citações autorizadas sobre os livros apócrifos, não existem evidências de que eram tidos como inspirados. Podemos presumir, portanto, que aquela comunidade cristã não considerava os apócrifos canónicos. Ainda que se encontrassem evidências em contrário, o fato de esse grupo ser uma seita que se separara do judaísmo oficial mostraria ser natural que não fosse ortodoxo em todas as suas crenças. Tanto quanto podemos distinguir, contudo, esse grupo era ortodoxo quanto à canonicidade do Antigo Testamento. Em outras palavras, não aceitavam a canonicidade dos livros apócrifos.

Resumo e conclusão
O cânon do Antigo Testamento até a época de Neemias compreendia 22 (ou 24) livros em hebraico, que, nas Bíblias dos cristãos, seriam 39, como já se verificara por volta do século IV a.C As objeções de menor monta a partir dessa época não mudaram o conteúdo do cânon. Foram os livros chamados apócrifos, escritos depois dessa época, que obtiveram grande circulação entre os cristãos, por causa da influência da tradução grega de Alexandria. Visto que alguns dos primeiros pais da igreja, de modo especial no Ocidente, mencionaram esses livros em seus escritos, a igreja (em grande parte por influência de Agostinho) deu-lhes uso mais amplo e eclesiástico. No entanto, até a época da Reforma esses livros não eram considerados canónicos.
A canonização que receberam no Concílio de Trento não recebeu o apoio da história. A decisão desse concílio foi polêmica e eivada de preconceito, como já o demonstramos.
Que os livros apócrifos, seja qual for o valor devocional ou eclesiástico que tiverem, não são canônicos, comprova-se pelos seguintes fatos:
1. A comunidade judaica jamais os aceitou como canónicos.
2. Não foram aceitos por Jesus, nem pelos autores do Novo Testamento.
3. A maior parte dos primeiros grandes pais da igreja rejeitou sua canonicidade.
4. Nenhum concílio da igreja os considerou canônicos senão no final do século IV.
5. Jerônimo, o grande especialista bíblico e tradutor da Vulgata, rejei¬tou fortemente os livros apócrifos.
6. Muitos estudiosos católicos romanos, ainda ao longo da Reforma, rejeitaram os livros apócrifos.
7. Nenhuma igreja ortodoxa grega, anglicana ou protestante, até a pre¬sente data, reconheceu os apócrifos como inspirados e canônicos, no sen¬tido integral dessas palavras.
À vista desses fatos importantíssimos, torna-se absolutamente necessário que os cristãos de hoje jamais usem os livros apócrifos como se fossem Palavra de Deus, nem os citem em apoio autorizado a qualquer doutrina cristã.
Com efeito, quando examinados segundo os critérios elevados de canonicidade, estabelecidos e discutidos, verificamos que aos livros apócrifos falta o seguinte:
1. Os apócrifos não reivindicam ser proféticos.
2. Não detêm a autoridade de Deus.
3. Contêm erros históricos (v. Tobias 1.3-5 e 14.11) e graves heresias teológicas, como a oração pelos mortos (2 Macabeus 12.45[46]; 4).
4. Embora seu conteúdo tenha algum valor para a edificação nos mo¬mentos devocionais, na maior parte se trata de texto repetitivo; são textos que já se encontram nos livros canônicos.
5. Há evidente ausência de profecia, o que não ocorre nos livros canônicos.
6. Os apócrifos nada acrescentam ao nosso conhecimento das verda¬des messiânicas.
7. O povo de Deus, a quem os apócrifos teriam sido originariamente apresentados, recusou-os terminantemente.

A comunidade judaica nunca mudou de opinião a respeito dos livros apócrifos. Alguns cristãos têm sido menos rígidos e categóricos; mas, seja qual for o valor que se lhes atribui, fica evidente que a igreja como um todo nunca aceitou os livros apócrifos como Escrituras Sagradas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Aula 6


Desenvolvimento do Cânon do Antigo Testamento
A história da canonização da Bíblia é incrivelmente fascinante. Trata-se de um livro escrito e coligido ao longo de quase dois mil anos, sem que cada autor estivesse consciente de como sua contribuição, i.e como seu "capítulo" se enquadraria no plano global. Cada contribuição profética era entregue ao povo de Deus simplesmente com base no fato de que Deus havia falado a esse povo mediante o profeta. De que maneira a mensagem se encaixaria na história total era algo que o profeta desconhecia inteiramente, e até mesmo para os crentes que de início ouviam, liam e reconheciam a mensagem. Somente a consciência dos cristãos, capazes de refletir nisso, em época posterior, é que poderia perceber a mão de Deus movimentando cada autor, mão que também moveria a cada um para produzir uma história global sobre a redenção de que só Deus mesmo poderia ser o autor. Nem os profetas que compuseram os livros, nem o povo de Deus que veio coligindo esses livros tiveram consciência de estar edificando a unidade global dentro da qual cada livro desempenharia uma função.

Algumas distinções preliminares
Deus inspirou os livros, o povo original de Deus reconheceu-os e coligiu-os, e os crentes de uma época posterior os distribuíram por categorias, como livros canónicos, de acordo com a unidade global que neles entreviam. Eis o resumo da história da canonização da Bíblia. Vamos agora explicar em detalhes algumas distinções importantes, implícitas nesse processo.

Os três passos mais importantes no processo de canonização
Há três elementos básicos no processo genérico de canonização da Bíblia: a inspiração de Deus, o reconhecimento da inspiração pelo povo de Deus e a coleção dos livros inspirados pelo povo de Deus. Um breve estudo de cada elemento mostrará que o primeiro passo na canonização da Bíblia (a inspiração de Deus) cabia ao próprio Deus. Os dois passos seguintes (reconhecimento e preservação desses livros), Deus os incumbiria a seu povo.

Inspiração de Deus. Foi Deus quem deu o primeiro passo no processo de canonização, quando de início inspirou o texto. Assim, a razão mais fundamental por que existem 39 livros no Antigo Testamento é que só esses livros, nesse número exato, é que foram inspirados por Deus. É evidente que o povo de Deus não teria como reconhecer a autoridade divina num livro, se ele não fosse revestido de nenhuma autoridade.

Reconhecimento por parte do povo de Deus. Uma vez que Deus houvesse autorizado e autenticado um documento, os homens de Deus o reconheciam. Esse reconhecimento ocorria de imediato, por parte da comunidade a que o documento fora destinado originariamente. A partir do momento que o livro fosse copiado e circulado, com credenciais da comunidade de crentes, passava a pertencer ao cânon. A igreja universal, mais tarde, viria a aceitar esse livro em seu cânon cristão. Os escritos de Moisés foram aceitos e reconhecidos em seus dias (Êx24.3), como também os de Josué (Js 24.26), os de Samuel (1Sm 10.25) e os de Jeremias (Dn 9.2). Esse reconhecimento seria confirmado também pelos crentes do Novo Testamento, e principalmente por Jesus.

Coleção e preservação pelo povo de Deus. O povo de Deus entesourava a Palavra de Deus. Os escritos de Moisés eram preservados na arca (Dt 31.26). As palavras de Samuel foram colocadas "num livro, e o pôs pe¬rante o Senhor" (1Sm 10.25). A lei de Moisés foi preservada no templo nos dias de Josias (2Rs 23.24). Daniel tinha uma coleção dos "livros" nos quais se encontravam "a lei de Moisés" e "os profetas" (Dn 9.2,6,13). Esdras possuía cópias da lei de Moisés e dos profetas (Ne 9.14,26-30). Os crentes do Novo Testamento possuíam todas as "Escrituras" do Antigo Testamento (2Tm 3.16), tanto a lei como os profetas (Mt 5.17).

A diferença entre os livros canônicos e outros escritos religiosos
Nem todos os escritos religiosos dos judeus eram considerados canônicos pela comunidade dos crentes. É óbvio que havia certa importância religiosa em alguns livros primitivos como o livro dos justos (Js 10.13), o livro das guerras do Senhor (Nm 21.14) e outros (1Rs 11.41). Os livros apócrifos dos judeus, escritos após o encerramento do período do Antigo Testamento (c. 400 a.C), têm significado religioso definido, mas jamais foram considerados canônicos pelo judaísmo oficial. A diferença essencial entre escritos canónicos e não-canônicos é que aqueles são normativos (têm autoridade), ao passo que estes não são autorizados. Os livros inspirados exercem autoridade sobre os crentes; os não-inspirados poderão ter algum valor devocional, ou para a edificação espiritual, mas jamais devem ser usados para definir ou delimitar doutrinas. Os livros canónicos fornecem o critério para a descoberta da verdade, mediante o qual todos os demais livros (não-canônicos) devem ser avaliados e julgados. Nenhum artigo de fé deve basear-se em documen¬to não-canônico, não importando o valor religioso desse texto. Os livros divinamente inspirados e autorizados são o único fundamento para a dou¬trina. Ainda que determinada verdade canónica receba algum apoio complementar da parte de livros não-canônicos, tal verdade de modo algum confere valor canônico a tais livros. Esse apoio terá sido puramente histórico, destituído de valor teológico autorizado. A verdade transmitida pelas Escrituras Sagradas, e por nenhum outro meio, é que constitui cânon ou fundamento das verdades da fé.

A diferença entre canonização e categorização dos livros da Bíblia
A incapacidade de distinguir as seções em que se divide o Antigo Testamento hebraico (lei, profetas e escritos) dos estágios ou períodos em que a coleção de livros se formou tem causado muita confusão. Durante anos, a teoria modelar da crítica tem sustentado que as Escrituras hebraicas haviam sido canonizadas por seções, seguindo as datas alegadas de sua composi¬ção: a lei (c. 400 a.C.), os profetas (c. 200 a.C.) e os escritos (c. 100 a.C.). Essa teoria originou-se na crença errônea, segundo a qual essa categorização tripartida do Antigo Testamento representava seus estágios de canonização. Como veremos mais a frente, não existe relação direta entre essas categorias e os acontecimentos. Os livros das Escrituras judaicas foram reagrupados várias vezes desde quando foram redigidos. Alguns deles, de modo especial os que fazem parte dos escritos, foram redigidos e aceitos pela comunidade judaica séculos antes das datas que os teóricos da crítica lhes atribuem.

Compilação progressiva dos livros do Antigo Testamento
O primeiro e mais fundamental fato a respeito do processo de canonização dos livros do Antigo Testamento é que essa primeira seção da Bíblia não se constitui de três partes, mas, quando muito, de duas. As referências mais antigas e mais repetidas do cânon empregam as seguin¬tes expressões: "Moisés e os profetas", "os profetas" ou simplesmente "os livros". Em nenhuma parte das Escrituras, quer na literatura extrabíblica, quer no período inicial da era cristã, existe alguma prova do chamado terceiro estágio canônico, constituído de escritos que teriam sido compostos e coligidos após a época da lei e dos profetas. No que diz respeito à canonicidade, os chamados escritos sempre fizeram parte da seção canônica comumente denominada profetas.

A evidência de um cânon constituído de duas partes

A classificação tríplice. No entanto, até mesmo antes da época do Novo Testamento, havia uma tradição crescente, segundo a qual haveria uma terceira seção que compreendia alguns livros do Antigo Testamento. No prólogo do livro apócrifo Siraque (c. 132 a.C), há referência à "lei e os profetas e os outros livros de nossos pais", lidos por seu avô (c. 200 a.C.). Por volta da época de Cristo, o filósofo judeu Filo fez uma distinção tríplice do Antigo Testamento, ao falar de "[1] leis e [2] oráculos transmitidos pela boca dos profetas, e [3] salmos e qualquer outra coisa que estimule e aperfeiçoe o conhecimento e a vida consagrada" (De vita contemplativa, 3,25). O próprio Jesus fez alusão a uma divisão tríplice, quando falou: "na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). Mais tarde um pouco, no século 1, Josefo, o historiador judeu, referiu-se aos 22 livros das Escrituras hebraicas, "cinco pertencentes a Moisés [...] os profetas [...] em treze livros. Os quatro livros restantes [aparentemente Jó, Salmos, Pro¬vérbios e Eclesiastes] contêm hinos a Deus, e preceitos para a conduta humana (Contra Ápion, 1,8). Por volta do século V d.C, o Talmude judaico (Baba Bathrá) relacionou onze livros numa terceira divisão chamada os Escritos (Kethubhim). A Bíblia hebraica relaciona-os da mesma forma até hoje, como vimos na aula 1.
Várias conclusões muito importantes podem ser tiradas desses da¬dos. Primeira: os fatos não mostram que a atual classificação de escritos, que contêm 11 dos 22 livros, é anterior ao século V d.C. Segunda: a referência mais antiga, segundo a qual a classificação dos livros possui uma terceira divisão, recua até Josefo, que apresenta quatro seções. Essa é uma forte evidência contra a reivindicação dos críticos, segundo os quais Daniel, Crónicas, Esdras e Neemias teriam sido livros posteriores, relacio¬nados entre os escritos que não haviam sido canonizados senão no sécu¬lo I d.C. Terceira: do total de 22 livros, alguns dos quais teriam sido colocados na seção dos escritos, só havia quatro no início, chegando a onze entre os séculos I e V. Nenhum desses fatos dá apoio à concepção de que houvesse um grupo de livros, dentre os quais Daniel, Crônicas, Esdras e Neemias, não incluídos no cânon judaico até o século 1 d.C. É certo que houve uma tendência no início para colocar os livros do Antigo Testa-mento numa classificação tríplice (por razões que não se entendem totalmente), e o número de livros nessa seção foi crescendo com o passar dos anos. Todavia, o número e as diferentes disposições desses livros não tinham nenhuma relação essencial com a divisão dupla, básica, nem com o desenvolvimento do cânon do Antigo Testamento.

A canonização em duas partes. As referências mais antigas e persistentes ao cânon do Antigo Testamento mostram que se tratava de uma coletânea de livros proféticos com duas divisões, a lei de Moisés e os profetas que surgiram depois dele. Vamos rastrear essas evidências na história.
Antes mesmo do exílio (século VI a.C.), já havia indícios de uma classificação dos livros em duas seções: Moisés e os profetas depois dele.
Explica-se isso pela atribuição de uma posição especial a Moisés, o gran¬de legislador, e por causa do estabelecimento de uma comunidade de profetas depois de Moisés (1Sm 19.20). Pela época do exílio, Daniel se referira aos "livros", os quais seriam os da "lei de Moisés" e "os profetas" (Dn 9.2,6,11). O profeta pós-exílio Zacarias (século VI a.C.) menciona: "... não ouvissem a lei, nem as palavras que o Senhor dos exércitos enviara pelo seu Espírito mediante os profetas" (Zc 7.12). Neemias faz a mesma distinção (Ne 9.14,29,30).
Durante o período intertestamentário, prossegue essa mesma distinção dupla. Deus falava mediante "a lei e os profetas" (2Mc 15.9). O Manual de disciplina da comunidade de Qumran, coerentemente, se refere ao Antigo Testamento como a lei e os profetas (1.3; 8.15; 9.11). Por fim, no Novo Testamento essa distinção dupla de lei e profetas é mencionada pelo menos dezenas de vezes.
Vários fatos significativos brotam de um estudo das referências do Novo Testamento à "lei" e aos "profetas". Em primeiro lugar, trata-se de uma expressão que abrange todos os livros do cânon hebraico. Lembremo-nos de que cerca de 18 dos 22 livros do Antigo Testamento Hebraico são mencionados autorizadamente no Novo Testamento (todos, menos Juizes, Crônicas, Ester e Cântico dos Cânticos). Embora não haja citação clara desses quatro livros, há alusões a eles. Quando Jesus disse: "A lei e os profetas duraram até João" (Lc 16.16,29,31), estava referindo-se a todos os escritos inspirados anteriores aos tempos do Novo Testamento. Mateus 22.40 traz a mesma alusão: "Destes dois mandamen¬tos [sobre o amor] depende toda a lei e os profetas". Jesus usou a mesma expressão quando ressaltou as verdades abrangentes, messiânicas, do Antigo Testamento: "E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24.27). Lucas informa-nos que "a lei e os profetas" eram lidos na sinagoga no sábado (At 13.15). Ao tentar convencer os judeus de que era completamente ortodoxo, o apóstolo Paulo afirmou crer "em tudo que está escrito na lei e nos profetas" (Lc 24.14; cf. 26.22). As referências ao Antigo Testamento como a lei e os profetas no sermão do monte é de importância crucial (Mt 5.17; cf. Rm 1.2). Declarou Jesus: "Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para cumpri-los. Em verdade vos digo que até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido" (Mt 5.17,18). Uma declaração forte como essa dificilmente estaria deixando de lado uma parte das Escrituras judaicas, mas abrangendo todos os livros.
A partir desses fatos, chegamos à conclusão de que a referência modelar a todo o cânon das Escrituras do Antigo Testamento edifica-se so¬bre a distinção entre Moisés e os profetas que viriam depois. Isso se iniciou numa época anterior ao exílio e estabeleceu-se sistematicamente até a época de Cristo. Visto que o Novo Testamento cita de modo específico todos os 22 livros do cânon hebraico, reconhecido pelos judeus do século I d.C, chegamos também à conclusão de que os limites, ou a extensão, desse cânon foram definidos para nós. O cânon hebraico contém todos os 24 livros que posteriormente (século V d.C.) seriam relacionados em categorias tríplices: a lei, os profetas e os escritos. Assim, seja qual for a origem da tendência para dividir os dezenove "profetas" em duas seções de “oito profetas e onze escritos", sabemos, sem sombra de dúvida, não ser essa a base de um desenvolvimento progressivo do cânon, em três estágios, que só se completaria quando os escritos viessem a ser aceitos no século I d.C.

O desenvolvimento do cânon do Antigo Testamento
Não existem dados suficientes para compor a história completa da formação do cânon do Antigo Testamento. No entanto, existem dados disponíveis que permitem traçar um esquema global e ilustrar alguns elos de vital importância. O resto precisa ser projetado, lançando mão do exercício de julgamento racional. O primeiro fator significativo no desenvolvimento do cânon do Antigo Testamento foi a coleção progressiva dos livros proféticos. Tais livros foram preservados como escritos divinos autorizados.

A evidência da coleção progressiva dos livros proféticos. Desde o início, os escritos proféticos foram reunidos pelo povo de Deus e reverenciados como escritos sagrados, autorizados, de inspiração divina. As leis de Moisés foram preservadas ao lado da arca no tabernáculo de Deus (Dt 31.24-26) e, mais tarde, no templo (2Rs 22.8). Josué acrescentou suas palavras "no livro da lei de Deus. Então tomou uma grande pedra, e a erigiu ali [...] junto ao santuário do Senhor" (Js 24.26). Samuel informou aos israelitas a respeito dos deveres de seu rei "e escreveu-o num livro, e o pôs perante o Senhor" (1Sm 10.25).
Samuel cuidava de uma escola de profetas, cujos alunos eram chamados "filhos dos profetas" (1Sm 19.20). De acordo com Ezequiel, havia um registro oficial de profetas e seus escritos no templo (Ez 13.9). Daniel refere-se aos “livros” que continham a “lei de Moisés” e os “Profetas” (9.2,6,11).
Os autores dos livros de Reis e Crónicas estavam cientes da existência de muitos livros escritos pelos profetas que narravam toda a história anterior ao exílio.
Essa evidência genérica da existência de uma coleção progressiva de
livros proféticos se confirma pelo uso específico de escritos de profetas antigos feito por profetas que viriam mais tarde. Os livros de Moisés são citados por todo o Antigo Testamento, desde Josué (1.7) até Malaquias (4.4), incluindo-se a maior parte dos grandes livros intermediários (1Rs 2.3; 2Rs 14.6; 2Cr 14.4; Jr 8.8; Dn 9.11; Ed 6.18 e Ne 13.1). Em Juizes 1.1,20,21 e 2.8, há referências a Josué e a acontecimentos narrados em seu livro. Os livros de Reis citam a vida de Davi conforme narrada nos livros de Samuel (v. 1Rs 3.14; 5.7; 8.16; 9.5). Crónicas faz uma revisão da história de Israel registrada desde Gênesis até Reis, incluindo-se o elo genealógico mencionado apenas em Rute (1Cr 2.12,13). Neemias 9 resume a história de Israel conforme o registro de Gênesis a Esdras. Um dos salmos de Davi, o salmo 18, está registrado em 2 Samuel 22. Há referências aos Provérbios de Salomão e ao Cântico dos Cânticos em 1Reis 4.32. Daniel cita Jeremias 25 (Dn 9.2). O profeta Jonas recita parte de muitos salmos (Jn 2). Ezequiel menciona Jó e Daniel (Ez 14.14, 20). Nem todos os livros de determinada época são mencionados em livros de época posterior; todavia, há menções suficientes para demonstrar que existia uma coleção crescente de livros divinamente inspirados, dotados da autoridade divina, de que os profetas subsequentes faziam uso, citando-os em suas profecias.

A evidência da continuidade profética. Houve, pois, uma coleção crescente de escritos proféticos: o Antigo Testamento em formação. Cada profeta que surgia ligava sua história aos elos da história existente, narrada pelos seus predecessores, formando uma corrente contínua de livros.
Visto que o último capítulo de Deuteronômio não se apresenta como profecia, entendemos que Moisés não escreveu a respeito de seu próprio sepultamento. É provável que Josué, seu sucessor nomeado por Deus, tenha registrado a morte de Moisés (Dt 34). O primeiro versículo de Josué está ligado a Deuteronômio: "Depois da morte de Moisés, servo do Senhor, disse o Senhor a Josué, filho de Nun...". Josué acrescentou algum texto ao de Moisés e colocou-o no tabernáculo (Js 24.26). Juizes retoma o texto no final de Josué, dizendo: "Depois da morte de Josué, os filhos de Israel perguntaram ao Senhor...". Todavia, o registro não ficou completo senão nos dias de Samuel. Isso se demonstra repetidamente pela declaração : "Naqueles dias não havia rei em Israel" (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25).
A essa altura, a continuidade profética se estabeleceu mediante uma escola dirigida por Samuel (1Sm 19.20). Dessa escola haveria de surgir uma série de livros proféticos que cobririam toda a história dos reis de Israel e de Judá como a amostragem seguinte nos ilustra:
1. A história de Davi foi escrita por Samuel (cf. 1Sm), por Natã e por Gade (1Cr 29.29).
2. A história de Salomão foi registrada pelos profetas Natã, Aias e Ido (2Cr 9.29).
3. Os atos de Roboão foram escritos por Semaías e por Ido (2Cr 12.15)
4. A história de Abias foi acrescentada pelo profeta Ido (2Cr 13.22).
5. A história do reinado de Josafá foi registrada pelo profeta Jeú (2Cr 20.34).
6. A história do reinado de Ezequias foi registrada por Isaías (2Cr 32.32).
7. A história do reinado de Manassés foi registrada por profetas anô¬nimos (2Cr 33.19).
8. Os demais reis também tiveram suas histórias narradas pelos profetas (2Cr 35.27).

Qualquer pessoa que esteja familiarizada com os livros bíblicos que abrangem o período de Davi até o exílio, verá que os livros proféticos relacionados acima não são idênticos aos livros de Samuel, Reis e Crónicas. Em cada caso repete-se que "o resto dos atos" do rei Fulano de Tal está escrito "no livro" do profeta Beltrano. Os livros bíblicos parecem resumos proféticos tirados de textos mais longos, registrados por profetas posteriores, numa sucessão iniciada por Samuel.
É interessante ressaltar que não houve menção de Jeremias, o qual escreveu antes do exílio judaico e, durante esse exílio, escreveu uma dessas histórias. No entanto, Jeremias era um profeta escritor, como mostram seus livros (Jeremias e Lamentações) e como ele claramente afirma em numerosas ocasiões (cf. Jr 30.2; 36.1,2; 45.1,2; 51.60,63). Aliás, o escriba Baruque nos informa que Jeremias contava com a ajuda de um secretário. Falando de Jeremias, ele confessa: "Com sua boca ditava-me todas estas palavras, e eu as escrevia no livro com tinta" (Jr 36.18; v. tb. 45.1). Além disso, o último capítulo de Reis corresponde aos textos de Jeremias 52, 39, 40 e 41. Esses são outros indícios de que Jeremias era responsável por ambos os livros. Mais tarde, no exílio, Daniel afirma ter tido acesso aos livros de Moisés e dos profetas. Menciona não só Jeremias, dentre eles, mas cita a predição do cativeiro de setenta anos, extraída do capítulo 25 (cf. Dn 9.2,6,11). Com base nesses fatos, é razoável supor que o resumo dos escritos proféticos, que tomou a forma dos livros bíblicos dos Reis, teria sido obra de Jeremias. Assim, a continuidade dos profetas a partir de Moisés, Josué e Samuel se completaria com as obras de Jeremias.
Durante o exílio, Daniel e Ezequiel continuaram o ministério profético. Ezequiel reconheceu um registro oficial de profetas nos arquivos do templo. Ele declarou que os falsos profetas "na congregação do meu povo não estarão, nem serão inscritos nos registros da casa de Israel" (Ez 13.9). Ezequiel referiu-se a Daniel por nome como notável servo de Deus (Ez 14.14,20). Visto que Daniel possuía uma cópia dos livros de Moisés e dos profetas, entre os quais o livro de Jeremias, podemos presumir razoavelmen¬te que a comunidade judaica no exílio babilónico possuía os livros de Gênesis a Daniel.
Depois do exílio, Esdras, o sacerdote, voltou da Babilónia levando consigo os livros de Moisés e dos profetas (Ed 6.18; Ne 9.14,26-30). Nos livros de Crônicas, sem dúvida, ele registrou seu relato sacerdotal da história de Judá e do templo (v. Ne 12.23). Crônicas está ligado a Esdras-Neemias pela repetição do último versículo de um, como o primeiro versículo do outro.
Com Neemias completa-se a cronologia profética. Cada profeta, desde Moisés até Neemias, contribuiu para a coleção sempre crescente de livros, que fora preservada pela comunidade dos profetas a partir de Samuel. Os 22 (24) livros das Escrituras hebraicas foram escritos por profetas, preservados pela comunidade dos profetas, e reconhecidos pelo povo de Deus. Até agora não existem evidências de que outros livros, chamados "escritos", houvessem alcançado canonização depois dessa época (c. 400 a.C.)

A evidência de que o cânon do Antigo Testamento se concluiu com os profetas. Até agora mostramos que as Escrituras hebraicas como um todo haviam sido coligidas em duas grandes seções: os cinco livros de Moisés e os dezessete (ou dezenove) profetas que sucederam a Moisés. Demonstramos também que houve continuidade nesses escritos proféticos. Cada profeta apoiou-se na autoridade dos escritos anteriores, de outros profe¬as, e acrescentou sua contribuição à crescente coleção das Escrituras Sagradas. Na época de Neemias (c. 400 a.C.), a sucessão profética havia produzido e coligido os 22 livros do cânon hebraico. Vamos agora comprovar esta última argumentação, e demonstrar que não havia uma terceira seção do cânon, escrita e reconhecida, depois dessa época. As evidências, resumidamente, são as seguintes:

1. Não se explorou o chamado Concílio de Jâmnia (c. 90 d.C.), época em que, segundo se afirma, a terceira seção dos escritos teria sido canonizada. Para os judeus, não houve um concílio autorizado. Realizou-se apenas uma reunião de especialistas. Assim, não houve um oficial, nem corpo de oficiais dotados de autoridade, a fim de reconhecer o cânon. Por isso, não houve canonização de livros em Jâmnia.

2. 0 livro de Daniel, que na opinião da alta crítica pertencia à seção de escritos, porquanto era tido como livro mais recente (século II a.C.) e não-profético, havia sido relacionado por Josefo entre os livros dos profetas. Dos 22 livros, dissera Josefo, só quatro, talvez Jó, Salmos, Provérbios e Eclesiastes, pertenciam à terceira seção. Daniel, sendo um dos outros li¬vros, deve ter sido relacionado entre os profetas, por Josefo. A descoberta de um fragmento antigo de Daniel, entre os rolos do mar Morto, e a referência que Jesus fez a Daniel como profeta confirmam essa posição.

3. O Novo Testamento cita quase todos os livros do cânon hebraico, mesmo os chamados escritos. No entanto, o Novo Testamento relaciona-os a todos claramente sob a dupla classificação de lei e profetas (cf. Mt 7.12; Mt 22.40; Lc 16.16).

4. O livro de Salmos, relacionado na terceira seção por Josefo, fazia parte dos profetas. Jesus usou a expressão "Moisés [...] Profetas e [...] Salmos" num paralelismo com a expressão "Moisés e todos os profetas" (Lc 24.27,44). Jesus falou aos judeus e citou um salmo, dizendo: "está escrito na vossa lei" (Jo 10.34,35), identificando-a como Escrituras, a Palavra de Deus. Tudo isso mostra com máxima clareza que os Salmos faziam parte das Escrituras judaicas canônicas, conhecidas como "a Lei e os Profetas". Na verdade, o Novo Testamento com toda a autoridade cita os Salmos como Escrituras, mais do que qualquer outro livro do Antigo Testamento. Isso também comprova que os Salmos eram considerados canônicos antes de 100 a.C.

5. De acordo com Josefo (Contra Ápíon, 1,8) e com oTalmude, a sucessão de profetas encerrou-se com Malaquias nos dias de Neemias. Assim registra o Talmude: "Depois dos últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito Santo apartou-se de Israel". Além disso, jamais o Novo Testamento cita algum outro livro, depois de Malaquias, como autorizado.

Conclusão:
Nossa investigação demonstra que, no que diz respeito às evidências, o cânon do Antigo Testamento se completou por volta de 400 a.C. Havia duas seções principais: a lei e os profetas. Quase todos os 22 (24) livros distribuídos entre as duas seções são mencionados pelo Novo Testamento como Sagradas Escrituras. Não existe apoio escriturístico nem histórico para a teoria de uma terceira divisão conhecida como "escritos", que estaria aguardando canonização em data posterior. Em vez disso, os livros inspirados foram incorporados ao cânon sob a denominação de “a Lei e os profetas". Essa canonização foi um processo duplo. Sejam quais forem os fatores que conduziram a uma categorização tríplice, paralela e subsequente desses livros do Antigo Testamento, um fato parece salientar-se com toda clareza — o cânon completo do Antigo Testamento é men¬cionado sempre como "a lei e os profetas". Q.e.d.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Aula 5 - AS CARACTERÍSTICAS DA CANONICIDADE


Que livros fazem parte da Bíblia? Que diremos a respeito dos cha¬mados livros ausentes? Como foi que a Bíblia veio a ser composta de 66 livros? Nas próximas aulas trataremos de responder a essas perguntas. Esse assunto intitula-se canonicidade. Trata-se do segundo grande elo da corrente que vem de Deus até nós. A inspiração é o meio pelo qual a Bíblia recebeu sua autoridade: a canonização é o processo pelo qual a Bíblia recebeu sua aceitação definitiva. Uma coisa é um profeta receber uma mensagem da parte de Deus, mas coisa bem diferente é tal mensagem ser reconhecida pelo povo de Deus. Canonicidade é o estudo que trata do reconhecimentp e da compilação dos livros que nos foram dados por inspiração de Deus.

Definição de canonicidade
A palavra cânon deriva do grego kanõn ("cana, régua"), que, por sua vez, se origina do hebraico kaneh, palavra do Antigo Testamento que significa "vara ou cana de medir" (Ez 40.3). Mesmo em época anterior ao cristia¬nismo, essa palavra era usada de modo mais amplo, com o sentido de padrão ou norma, além de cana ou unidade de medida. O Novo Testamento emprega o termo em sentido figurado, referindo-se a padrão ou regra de conduta (Gl 6.16).

O Emprego da palavra "cânon" pelo cristão da Igreja primitiva
Nos primórdios do cristianismo, a palavra cânon significava "regra" de fé, ou escritostos normativos (i.e., as Escrituras autorizadas). Por volta da época de Atanásio (c. 350), o conceito de cânon bíblico, ou de Escrituras normativas, já estava em desenvolvimento. A palavra cânon aplicava-se à Bíblia tanto no sentido ativo como no passivo. No sentido ativo, a Bíblia é o cânon pelo qual tudo o mais deve ser julgado. No sentido passivo, cânon significava a regra ou padrão pelo qual um escrito deveria ser julgado inspirado, ou dotado de autoridade. Esse emprego em duas direções causa certa confusão, que tentaremos dissipar. Primeiramente, vamos verificar o que significa cânon em
sentido ativo. Em seguida, verificaremos seu sentido passivo.

Alguns sinônimos de canonicidade
A existência de um cânon, ou coleção de escritos autorizados, antecede o uso do termo cânon. A comunidade judaica coligiu e preservou as Escrituras Sagradas desde o tempo de Moisés.
Escrituras Sagradas. Um dos conceitos mais antigos de cânon foi o de escritos sagrados. O fato de os escritos de Moisés serem considerados sagrados se demonstra pelo lugar santo em que eram guardados, ao lado da arca da aliança (Dt 31.24-26). Depois que o templo foi edificado, esses escritos sagrados foram preservados em seu interior (2Rs 22.8). A consideração especial dada a esses livros especiais mostra que eram tidos como canónicos, ou sagrados.
Escritos autorizados. A canonicidade das Escrituras também é designada autoridade divina. A autoridade dos escritos mosaicos foi salientada perante Josué e perante Israel (Js 1.8). Todos os reis de Israel foram exortados a esse respeito: "Quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si num livro uma cópia desta lei [...]. Conservará a cópia consigo, e a lerá todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer ao Se¬nhor seu Deus, e a guardar todas as palavras desta lei..." (Dt 17.18,19). Visto que esses livros vieram da parte de Deus, vieram revestidos de sua autoridade. Sendo escritos dotados de autoridade, eram canónicos, i.e, normativos, para o crente israelita.
Livros que conspurcam as mãos. Na tradição de ensino de Israel, surgiu o conceito de livros tão sagrados, ou santos, que aqueles que os usassem ficariam com as mãos "conspurcadas". Assim diz o Talmude: "O evangelho e os livros dos hereges não maculam as mãos; os livros de Ben Sira e quaisquer outros livros que tenham sido escritos desde sua época não são canônicos" (Tosefta Yadaim, 3,5). Ao contrário, os livros do Antigo Testamento hebraico, na verdade, tornam imundas as mãos, porque são santos. Por isso, só os livros que exigissem que seu leitor passasse por uma cerimônia especial de purificação é que eram considerados canónicos.
Livros proféticos. Como já dissemos antes, determinado livro só era considerado inspirado se escrito por um profeta, ou porta-voz de Deus. As obras e as palavras dos falsos profetas eram rejeitadas e jamais agrupadas e guardadas num lugar santo. De fato, segundo Josefo (Contra Ápion, 1,8), só os livros que haviam sido redigidos durante o período profético, de Moisés até o rei Artaxerxes, podiam ser canônicos. Assim se expressou Josefo: "Desde Artaxerxes até a nossa época tudo tem sido registrado, mas nada foi considerado digno do mesmo crédito das obras do passado, visto que a sucessão exata de profetas cessou". Foram canónicos apenas os livros de Moisés a Malaquias, pois só esses foram escritos por homens em sucessão profética. Do período de Artaxerxes (século IV aC.) até Josefo (século I dC.), não houve sucessão profética; por isso, não faz parte do período profético. O Talmude faz a mesma afirmação, dizendo: "Até esta altura [século iv a.C.] os profetas profetizavam mediante o Espírito Santo; a partir desta época inclinai os vossos ouvidos e ouvi as palavras dos sábios" (Seder Olam Rabba, 30). Portan¬to, para ser canônico, qualquer livro do Antigo Testamento deveria vir de uma sucessão profética, durante o período profético.

A determinação da canonicidade
Essas considerações em torno da canonicidade ajudam-nos a esclarecer o que significa Escrituras canônicas. A confusão existente entre os sentidos ativo e passivo da palavra cânon trouxe anbiguidade à questão do que determina a canonicidade de um livro.

Alguns conceitos deficientes sobre o que determina a canonicidade
Foram apresentadas várias opiniões a respeito do que determina a canonicidade de um escrito. Essas posições confundem os cânones, ou regras, mediante as quais o crente descobre que determinado livro é inspirado (sentido passivo da palavra cânon), com os cânones dos escritos normativos que foram descobertos (sentido ativo da palavra cânon). Assim, tais teorias são insatisfatórias quanto aos conceitos sobre o que determina a canonicidade de um livro. Vamos examiná-las de modo sucinto.

A concepção de que a idade determina a canonicidade. A teoria segundo a qual a canonicidade de um livro é determinada pela sua antiguidade, que tal livro veio a ser venerado por causa de sua idade, erra o alvo por duas razões. Primeira: muitos livros velhíssimos, como o livro dos justos e o livro das guerras do Senhor (Js 10.13 e Nm 21.14) nunca foram aceitos no cânon. Em segundo lugar, há evidências de que os livros canônicos foram introduzidos no cânon imediatamente, e não depois de haverem envelhecido. É o caso dos livros de Moisés (Dt 31.24-26), de Jeremias (Dn 9.2) e dos escritos dp Novo Testamento produzidos por Paulo (2Pe 3.16).

A concepção de que a língua hebraica determina a canonicidade. É insatisfatória também a teoria segundo a qual os livros que fossem escritos em hebraico, a língua "sagrada" dos hebreus, seriam considerados sagrados, e os que houvessem sido escritos em outra língua não seriam introduzidos no cânon. A verdade é que nem todos os livros redigidos em hebraico foram aceitos, como é o caso dos livros apócrifos e de outros documentos antigos não-bíblicos (v. Js 10.13). Além disso, há seções de alguns livros aceitos no cânon sagrado que não foram escritas em hebraico (Daniel 2.4b-7.28 e Esdras 4.8—6.18; 7.12-26 foram escritos em aramaico).

A concepção de que a concordância do texto com a Torat determina a sua canonicidade. Esta é uma visão errônea, concernente à Torat (lei de Moisés). Nem é necessário mencionar que quaisquer textos que contradigam a Torat deviam ser rejeitados, tendo em vista a crença de que Deus não poderia contradizer-se em suas revelações posteriores. Essa teoria, porém, despreza duas questões de grande importância. Em primeiro lugar, não era a Torat que determinava a canonicidade dos escritos que lhe sucederam. Antes, o fator determinante da canonicidade da Torat era o mesmo que determinaria a de todas as demais Escrituras Sagradas, a saber, que os escritos fossem inspirados por Deus. Em outras palavras, a concepção de que a concordância com a Torat determina a canonicidade de um documento é insatisfatória porque não explica o que foi que determinou a canonicidade da Tora. Em segundo lugar, tal teoria é demasiado generalizante. Muitos outros textos que estavam de acordo com a Tora não foram aceitos como inspirados. Os pais judeus criam que seu Talmude e Midrash concordavam com a Torat, mas jamais os consideraram canônicos. O mesmo vale dizer de muitos escritos cristãos em relação ao Novo Testamento.

A concepção de que o valor religioso determina a canonicidade. Essa é outra hipótese: que o valor religioso de um livro determina sua inclusão no cânon sagrado. Outra vez temos aqui o carro adiante dos bois. É axiomático afirmar que, se um livro não tiver algum tipo de valor espiritual, deve ser rejeitado e eliminado do cânon. Também é verdade que nem todos os livros que possuem algum valor espiritual sejam automaticamente canônicos, como o comprovam alguns tesouros da literatura judeu-cristã, dos quais são alguns apócrifos. O fato mais importante, no entanto, é que essa teoria faz confusão entre causa e efeito. Não é o valor religioso que determina a canonicidade de um texto; é sua canonicidade que determina seu valor religioso. De forma mais precisa, não é o valor de um livro que determina sua autoridade divina, mas a autoridade divina é que determina seu valor.

A canonicidade é determinada pela inspiração
Os livros da Bíblia não são considerados oriundos de Deus por se haver descoberto neles algum valor; são valiosos porque provieram de Deus — fonte de todo bem. O processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração. É a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá autoridade divina a um livro, e os homens de Deus o acatam. Deus revela, e seu povo reconhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é determinada por Deus e descoberta pelos homens de Deus. A Bíblia constitui o "cânon", ou "medida" pela qual tudo mais deve ser medido e avaliado pelo fato de ter autoridade concedida por Deus. Sejam quais forem as medidas (i.e., os cânones) usadas pela igreja para descobrir com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve dizer que "determinam" a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de Deus, mediante quaisquer regras de reconhecimento, "determina" que livros são autorizados por inspiração de Deus só confunde a questão. Só Deus pode conceder a um jivro autoridade absoluta e, por isso mesmo, canonicidade divina. O sentido primário da palavra cânon aplicado às Escrituras é aplicado na acepção ativa, i.e., a Bíblia é a norma que governa a fé. O sentido secundário, segundo o qual um livro é julgado por certos cânones e é reconhecido como inspirado (o sentido passivo), não deve ser confundido com a determinação divina da canonicidade. Só a inspiração divina determina a autoridade de um livro, i.e., se ele é canónico, de natureza normativa.

A descoberta da canonicidade
O povo de Deus tem desempenhado um papel de cabal importância no processo de canonização, ao longo dos séculos, ainda que tal papel não tenha natureza determinadora. A comunidade de crentes arca com a tarefa de chegar a uma conclusão sobre quais livros são realmente de Deus. A fim de cumprir esse papel, a igreja deve procurar certas características próprios da autoridade divina. Como poderia alguém reconhecer um livro inspirado só por vê-lo? Quais são os elementos característicos que distinguem uma declaração de Deus de um enunciado meramente humano? Vários critérios estavam em jogo nesse processo de reconhecimento.

Os princípios de descoberta da canonicidade
Nunca deixaram de existir falsos livros e falsas mensagens. Por representarem ameaça constante, fez-se necessário que o povo de Deus revisse cuidadosamente sua coleção de livros sagrados. Até mesmo os livros aceitos por outros crentes, ou em tempos anteriores, foram posteriormente questionados pela igreja. São discerníveis cinco critérios básicos, presentes no processo como um todo: 1) O livro é autorizado —afirma vir da parte de Deus? 2) É profético — foi escrito por um servo de Deus,? 3) É digno de confiança — fala a verdade acerca de Deus, do homem etc.? 4) É dinâmico — possui o poder de Deus que transforma vidas? 5) É aceito pelo povo de Deus para o qual foi originariamente escrito — é reconhecido como proveniente de Deus?

A autoridade de um livro. Como demonstramos antes, cada livro da Bíblia traz uma reivindicação de autoridade divina. Com frequência a expressão categórica "assim diz o Senhor" está presente. Às vezes o tom e as exortações revelam sua origem divina. Sempre existe uma declaração divina. Nos escritos mais didáticos (os de ensino), existe uma declaração divina a respeito do que os crentes devem fazer. Nos livros históricos, as exortações ficam mais implícitas, e as declarações autorizadas são mais a respeito do que Deus tem feito na história de seu povo (que é "a história narrada por Deus"). Se faltasse a um livro a autoridade de Deus, esse era considerado não-canônico, não sendo incluído no cânon sagrado.
Vamos ilustrar esse princípio de autoridade no que se relaciona ao cânon. Os livros dos profetas eram facilmente reconhecidos como canónicos por esse princípio de autoridade. A expressão repetida "e o Senhor me disse" ou "a palavra do Senhor veio a mim" é evidência abundante de sua autoridade divina. Alguns livros não tinham nenhuma reivindicação de origem divina, pelo que foram rejeitados e tidos como não-canônicos. Talvez tenha sido o caso do livro dos justos e do livro das guerras do Senhor. Outros livros foram questionados e desafiados quanto à sua autoridade divina, mas por fim foram aceitos no cânon. É o caso de Ester. Não antes de se tornar perfeitamente patente que a proteção Deus e, portanto, as declarações do Senhor a respeito de seu povo estavam inquestionavelmente presentes em Ester, recebeu este livro lugar permanente no cânon judaico. Na verdade, o simples fato de alguns li¬vros canónicos serem questionados quanto à sua legitimidade é uma segurança de que os crentes usavam seu discernimento. Se os crentes não estivessem convencidos da autoridade divina de um livro, este era rejeitado.

A autoria profética de um livro. Os livros proféticos só foram produzi¬dos pela atuação do Espírito, que moveu alguns homens conhecidos como profetas (2Pe 1.20,21). A Palavra de Deus só foi entregue a seu povo mediante os profetas de Deus. Todos os autores bíblicos tinham um dom profético, ou uma função profética, ainda que tal pessoa não fosse profe¬ta por ocupação (Hb 1.1).
Paulo exorta o povo de Deus em Galatas, dizendo que suas cartas deveriam ser aceitas porque ele era apóstolo de Cristo. Suas cartas não foram produzidas por um homem comum, mas por um apóstolo; não "por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos" (Gl 1.1). Suas cartas deviam ser acatadas porque eram apostólicas — saíram de um porta-voz de Deus, ou profeta de Deus. Todos os livros deveriam ser rejeitados caso não proviessem de profetas no¬meados por Deus; essa era a advertência de Paulo. Os crentes não deviam aceitar livros de alguém que falsamente afirmasse ser apóstolo de Cristo (2Ts 2.2), conforme advertência de Paulo também em 2Coríntios 11.13 a respeito dos falsos profetas. As advertências de João sobre os falsos messias e para que os crentes provassem os espíritos enquadram-se nessa mesma categoria (IJo 2.18,19 e 4.1-3). Foi por causa desse princípio profético que a segunda carta de Pedro foi objetada por alguns da igreja primitiva. Enquanto os pais da igreja não ficaram convencidos de que essa carta não havia sido forjada, mas de fato viera da mão do apóstolo Pedro, como seu primeiro versículo o menciona, ela não recebeu lugar permanente no cânon cristão.

A confiabilidade de um livro. Outro sinal característico da inspiração é ''ser um livro digno de confiança. Todo e qualquer livro que contenha erros factuais ou doutrinários (segundo o julgamento de revelações anteriores) não pode ter sido inspirado por Deus. Deus não pode mentir; a palavras do Senhor só podem ser verdadeiras e coerentes.
À vista desse princípio, os crentes de Beréia aceitaram os ensinos de Paulo e pesquisaram as Escrituras, para verificar se o que o apóstolo estava ensinando estava de fato de acordo com a revelação de Deus no Antigo Testamento (At 17.11). O mero fato de um texto estar de acordo com uma revelação anterior não indica que tal texto é inspirado. Mas a contradição de uma revelação anterior sem dúvida seria indício de que o ensino não era inspirado.
Grande parte dos apócrifos foi rejeitada por causa do princípio da confiabilidade.Suas anomalias históricas e heresias teológicas os rejeitaram; seria impossível aceitá-los como vindos de Deus, a despeito de sua aparência de autorizados. Não podiam vir de Deus e ao mesmo tempo apresentar erros,
Alguns livros canônicos foram questionados com base nesse mesmo princípio. Poderia a carta de Tiago ser inspirada, se contradissesse o ensino de Paulo a respeito da justificação pela fé e nunca pelas obras? Até que a compatibilidade essencial entre os autores se comprovasse, a carta de Tiago foi questionada por alguns estudiosos. Outros questionaram Judas por causa de sua citação de livros não-confiáveis, pseudepigráficos (vv. 9,14). Desde que ficasse entendido que as citações feitas por Judas não podiam conferir nenhuma autoridade àqueles livros, assim como as citações feitas por Paulo, de poetas não-cristãos (v. tb. At 17.28 e Tt 1.12), não poderia conferir a esses nenhuma autoridade, nenhuma razão have¬ria para que a carta de Judas fosse rejeitada.

A natureza dinâmica de um livro. O quarto teste de canonicidade, às vezes menos explícito do que alguns dos demais, era a capacidade do texto de transformar vidas "... a palavra de Deus é viva e eficaz..." (Hb 4.12). O resultado é que ela pode ser usada "para ensinar, para repreen¬der, para corrigir e para instruir em justiça" (2Tm 3.16,17).
O apóstolo Paulo revelou-nos que a habilidade dinâmica das Escrituras inspiradas estava implicada na aceitação das Escrituras como um todo, como mostra 2Timóteo 3.16,17. Disse Paulo a Timóteo: "... as sagradas letras [...] podem fazer-te sábio para a salvação..." (v. 15). Em outro texto, Pedro se refere ao poder de evangelização e de edificação cristã da Pala¬vra (IPe 1.23; 2.2). Outros livros e mensagens foram rejeitados porque apresentavam falsas esperanças (lRs 22.6-8) ou faziam rugir alarmes falsos (2Ts2.2).Assim, não conduziam o crente ao crescimento na verdade de Jesus Cristo. Assim dissera o Senhor: "Conhecereis a verdade, e a ver¬dade vos libertará" (Jo 8.32). O ensino falso jamais liberta; só a verdade possui poder emancipador.
Alguns livros da Bíblia, como Cântico dos Cânticos e Eclesiastes, foram questionados por alguns estudiosos os julgarem isentos desse poder dinâmico, capaz de edificar o crente. Desde que se convenceram de que o Cântico dos Cânticos não era sensual, mas profundamente espiritual, e que Eclesiastes não é um livro cético e pessimista, mas positivo e edificante (e.g., 12.9,10), pouca dúvida restou acerca de sua canonicidade.
A aceitação de um livro. A marca final de um documento escrito autorizado é seu reconhecimento pelo povo de Deus ao qual, originariamente, se havia destinado. A Palavra de Deus, dada mediante seus profetas e contendo sua verdade, deve ser reconhecida pelo seu povo. Gerações posteriores de crentes procuraram constatar esse fato. É que, se determinado livro fosse recebido, coligido e usado como obra de Deus, pelas pessoas a quem originariamente se havia destinado, ficava comprovada a sua canonicidade. Sendo o sistema de comunicações e de transportes atrasado como era nos tempos antigos, às vezes a determinação da canonicidade de um livro da parte dos pais da igreja exigia muito tempo e esforço. É por essa razão que o reconhecimento definitivo, completo, por toda a igreja cristã, dos 66 livros do cânon das Escrituras Sagradas exigiu tantos anos.
Os livros de Moisés foram aceitos imediatamente pelo povo de Deus. Foram coligidos, citados, preservados e até mesmo impostos sobre as novas gerações. As cartas de Paulo foram recebidas imediatamente pelas igrejas às quais haviam sido dirigidas (1Ts 2.13), e até pelos demais apóstolos (2Pe 3.16). Alguns escritos foram imediatamente rejeitados pelo povo de Deus, por não apresentarem autoridade divina (2Ts 2.2) Os falsos profetas (Mt 7.21-23) e os espíritos de mentira deveriam ser testados e rejeitados (IJo 4.1-3), como se vê em muitos exemplos den¬tro da própria Bíblia (cf. Jr 5.2; 14.14) Esse princípio de aceitação levou alguns a questionar durante algum tempo certos livros da Bíblia, como 2 e 3 João. São de natureza particular e de circulação restrita; é compreensível, pois, que houvesse alguma relutância em aceitá-los, até que essas pessoas em dúvida tivessem absoluta certeza de que tais livros haviam sido recebidos pelo povo de Deus do século 1 como cartas do apóstolo João.
É quase desnecessário dizer que nem todas as pessoas deram pronto reconhecimento às mensagens dos profetas de Deus. Deus assumia a de¬fesa rigorosa de seus profetas, contra todos quantos os rejeitassem (e.g., IRs 22.1-38). E, quando o Senhor era desafiado, mostrava quem era seu povo. Quando a autoridade de Moisés foi desafiada por Coré e seus asseclas, a terra se abriu e os engoliu vivos (Nm 16). O papel do povo de Deus era decisivo no reconhecimento da Palavra de Deus. O próprio Deus havia determinado a autoridade que envolvia os livros do cânon que ele inspirara, mas o povo de Deus também havia sido chamado para essa tarefa: descobrir quais eram os livros dotados de autoridade, e quais eram falsos. Para auxiliar o povo de Deus nessa descoberta, havia cinco testes de canonicidade.

O procedimento para a descoberta da canonicidade
Quando nos pomos a discorrer sobre o processo de canonização, não devemos imaginar uma comissão de pais da igreja, carregando pilhas de livros, tendo diante dos olhos a lista desses cinco princípios orientadores. Tampouco houve uma comissão ecuménica nomeada com o objetivo de canonizar a Bíblia. O processo era muitíssimo natural e dinâmico. O desenvolvimento da história real da criação do cânon do Antigo e do Novo Testamento será discutido mais tarde. O que devemos registrar aqui é como as cinco regras determinadoras da canonicidade foram usadas no processo de descobrir que livros eram inspirados por Deus, sendo, por isso, canônicos.
Alguns princípios estão apenas implícitos no processo. Embora todos os cinco elementos estejam presentes em cada documento escrito e inspirado, nem todas as regras de reconhecimento ficam visíveis na decisão sobre a provável (ou improvável) inspiração de cada livro. Nem sempre parecia imediatamente óbvio ao antigo povo de Deus que determinado livro fosse "dinâmico" ou "autorizado". Era lhes mais óbvio o fato de um livro ser "profético" e "aceito". Você pode ver facilmente como a ex¬pressão implícita "assim diz o Senhor" desempenhava papel de grande importância na descoberta e na determinação dos livros canónicos, reveladores do plano redentor global de Deus. No entanto, às vezes acontecia o contrário; em outras palavras, o poder e a autoridade de um livro eram mais visíveis do que sua autoria (e.g., Hebreus). De qualquer maneira, todas as cinco características estavam presentes na descoberta e na determinação de cada livro canônico, ainda que alguns desses princípios só fossem aplicados de modo implícito.
Alguns princípios atuavam de modo negativo no processo. Algumas das regras de reconhecimento atuavam de modo rnais negativo que outras. Por exemplo, o princípio da confiabilidade eliminava mais depressa os livros não-canônicos, não tendo a mesma rapidez para indicar os canónicos. Não existem ensinos falsos que, apesar disso, sejam canônicos; no entanto, há muitos escritos que expõem a verdade sem jamais terem sido inspirados. De modo semelhante, muitos livros que edificam, ou apresentam dinâmica espiritual positiva, não são canônicos, embora nenhum livro canônico deixe de ter importância no plano salvífico de Deus.
Semelhantemente, um livro pode reivindicar autoridade sem ser inspirado por Deus, como o mostram os muitos livros apócrifos, mas nenhum livro pode ser canônico sem que seja revestido de autoridade divina. Em outras palavras, se a um livro faltar autoridade, é certo que não veio de Deus. Mas o simples fato de um livro reivindicar autoridade para si mesmo não o torna, ipso facto, inspirado. O princípio da aceitação tem função primordialmente negativa. Nem mesmo o fato de um livro receber aceitacão de parte do povo de Deus significa prova de sua inspiração.
Muitos anos depois, passadas algumas gerações de cristãos, alguns destes, mal-informados a respeito da aceitação ou da rejeição pelo povo de Deus dos livros propostos, atribuíram reconhecimento local, temporal a certos livros não-canônicos (e.g., alguns livros apócrifos). O simples fato de um livro qualquer ter sido aceito em algum lugar, por alguns crentes em Cristo, de modo algum constitui prova da canonicidade e da inspiração de tal livro. O reconhecimento inicial de um derminado livro, pelo povo de Deus, que estava na melhor posição possível para testar a autoridade profética desse livro, é elemento de cabal importância. Levou algum tempo até que todos os segmentos das gerações posteriores de cristãos ficassem totalmente informados a respeito das circunstâncias iniciais. Assim, a aceitação por parte desses cristãos posteriores é importante, mas funciona como apoio adicional.

O princípio realmente essencial substitui todos os demais princípios. No alicerce de todo o processo de reconhecimento existe um princípio fundamental — o da natureza profética do livro. Se um livro houver sido escrito por um profeta prestigiado e honrado de Deus, e se ele afirmar que presentará uma enunciação autorizada da parte de Deus, nem há necessidade de formular as demais perguntas. E claro que o povo de Deus reconheceu esse livro como poderoso e verdadeiro, quando lhes foi entregue por um profeta de Deus. Quando não havia confirmação direta da vocação desse profeta da parte de Deus (como frequentemente havia, cf. Êx 4.1-9), então a confiabilidade, a habilidade dinâmica desse livro e sua aceitarão pelo povo, ou seja, pela comunidade cristã original, seria elemento ssencial para o reconhecimento posterior de sua inspiração.
A questão de poder ou não falta de confiabilidade afastar a confirmação de um livro profético é puramente hipotética. Nenhum livro concedido por Deus pode ser falso. Se um livro que se considera profético apresenta falsidade inquestionável, é preciso que se reexaminem suas credenciais proféticas. Deus não pode mentir. Dessa forma, os outros quatro princípios servem para conferir o caráter profético dos livros do cânon.

sábado, 8 de setembro de 2007

A Origem de Satanás (texto complementar)


Em algumas obras de referência bíblica, comumente encontramos a palavra "Satanás" explicada da seguinte maneira:
— O Velho Testamento indica que Satanás foi criado por Deus como um anjo governante chamado Lúcifer, com grandes poderes. Mas o orgulho levou Lúcifer a se rebelar contra Deus, conforme está em Isaías 14:12-14 e em Ezequiel 28:12-15. Torcido pelo pecado, Lúcifer é transformado em Satanás, que quer dizer `inimigo´ ou `adversário´ ...Satanás é um poderoso anjo decaído, intensamente hostil a Deus e antagonista do povo de Deus.
Assim, se perguntarmos à maioria das pessoas que crêem na Bíblia, de onde veio Satanás, nove entre dez dirão algo semelhante ao que acabamos de ler.
A idéia de que Satanás é um anjo decaído a quem Deus expulsou do céu e que caiu na terra é tão divulgada que muitas pessoas acreditam que a Bíblia ensina isso. Mas, a verdade é outra. A Bíblia não ensina tal coisa. É certo que há passagens na Bíblia que falam de seres caindo do céu, mas estas passagens não são sobre Satanás, e tais passagens usam linguagem figurada, como veremos.
Somente através de uma leitura descuidada destes textos pode alguém chegar à história popular relativa à origem de Satanás. Vamos examinar as passagens bíblicas que são importantes sobre esse assunto para que os irmãos compreendam bem o que queremos dizer.

Quem é Satanás?
O nome "Satanás" é uma representação da palavra hebraica satan, significando aquele que é acusador no sentido legal. Ou seja, um queixoso que tem uma acusação a apresentar diante de um tribunal ou de alguém.
Em Zc 3:1 lemos — Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do SENHOR, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor.
Ou seja, Satanás se opõe a nós, trabalha contra nós, ou "nos persegue", na tentativa de nos derrotar espiritual e moralmente. Neste sentido, Jesus chamou Satanás de homicida e de mentiroso, conforme está em Jo 8:44.
Em Ap 12:9, João retrata Satanás como um grande dragão, uma representação que ressalta a sua natureza terrível. Esse mesmo verso identifica Satanás, também, como a serpente, numa referência a Gênesis 3, e como o diabo, que é outro nome bíblico comum para ele.
Talvez, 1 Pe 5:8 nos diga o que mais precisamos saber a respeito de Satanás — O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar.
Agora, reparem, a ênfase bíblica está no que Satanás é em relação a nós, ou seja, um inimigo. Algumas pessoas, entretanto, pensam que certos textos bíblicos nos dizem como Satanás veio a se tornar assim.
Vamos, então, examinar estes textos cuidadosamente, para que não fique qualquer dúvida na nossa cabeça.

1º - Isaías 14:12-14
Esta passagem diz: — Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
Reparem que esta passagem não menciona Satanás por nenhum de seus nomes bíblicos. Somente assumindo que esta passagem descreve Satanás é que poderíamos extrair deste texto uma teoria da origem de Satanás. Mas, isso não pode ser feito porque teríamos que ignorar o contexto da passagem na mensagem de Isaías.
Vejam que Isaías não estava falando sobre Satanás nesse capítulo 14, nem tampouco a origem de Satanás faz parte da mensagem do profeta. Se dissermos que este texto é sobre a origem de Satanás, isso simplesmente torna sem sentido o contexto da mensagem.
Isaías, reparem, profetizou durante os reinados dos reis Uzias, Jotão, Acaz, e Ezequias (Is 1:1). Seu ministério abrangeu, aproximadamente, os anos 750 - 686 a.C., uns 65 anos, no máximo. Naquele tempo, o povo de Deus tinha se corrompido pela idolatria.
Deus, então, enviou Isaías para pregar o arrependimento ao seu povo e para adverti-lo de que, se eles não abandonassem a idolatria, haveria um desastre em escala nacional.
Isaías pregou a ambos os reinos, de Israel e de Judá, cumprindo sua missão, dizendo ao povo que eles sofreriam terrivelmente se recusassem arrepender-se.
Is 10:5-6 resume a mensagem ao reino do norte, dizendo — Ai da Assíria, cetro da minha ira! A vara em sua mão é o instrumento do meu furor. Envio-a contra uma nação ímpia e contra o povo da minha indignação lhe dou ordens, para que dele roube a presa, e lhe tome o despojo, e o ponha para ser pisado aos pés, como a lama das ruas.
Em linguagem semelhante, Is13:3-6 fala ao reino do sul, o reino contra o qual Deus enviaria os babilônios — Eu dei ordens aos meus consagrados, sim, chamei os meus valentes para executarem a minha ira, os que com exultação se orgulham. Já se ouve sobre os montes o rumor como o de muito povo, o clamor de reinos e de nações já congregados. O SENHOR dos Exércitos passa revista às tropas de guerra. Já vêm de um país remoto, desde a extremidade do céu, o SENHOR e os instrumentos da sua indignação, para destruir toda a terra. Uivai, pois está perto o Dia do SENHOR; vem do Todo-Poderoso como assolação.
Reparem que a mensagem de Isaías não era somente de desânimo e condenação. Os assírios e os babilônios eram, simplesmente, instrumentos que Deus usaria para punir o seu povo. Uma vez que Deus tivesse usado essas nações para seus propósitos, Ele se voltaria e aplicaria seu julgamento sobre eles, pela impiedade deles próprios.
Essa é, portanto, uma mensagem da soberania de Deus em ação. A Babilônia cairia e, depois disso, Deus renovaria e reuniria seu povo e lhes daria uma gloriosa e nova existência.
Isaías 14 é, assim, uma mensagem sobre a queda do império babilônico. Isaías diz aos habitantes do reino de Judá que, depois que eles tivessem sofrido o castigo, viria o dia quando eles poderiam ver a queda de seu opressor e mangar de Babilônia do mesmo modo como Babilônia havia mangado de Judá.
Dessa maneira, reparem, por que motivo Isaías começaria o capítulo falando sobre a queda de Babilônia, interromperia com uma descrição da origem de Satanás, e então recomeçaria a falar sobre a queda de Babilônia novamente?
Simplesmente, não faz qualquer sentido no contexto, ver 14:12-14 como sendo um texto sobre a origem de Satanás.
O fato é que Isaías estava descrevendo, para povo de Judá, o que eles estariam dizendo quando zombassem do rei de Babilônia que tinha sido rebaixado e decaído do poder (v.4). As posições iriam se inverter, e Isaías está, justamente, descrevendo a ironia de tudo isso.
Até mesmo uma leitura corrida da passagem revela que a linguagem aqui é poética e figurativa, e temos que tratá-la de acordo.
"Céu" no (v.12) é linguagem figurativa para significar o que é alto e exaltado, e Isaías está aqui descrevendo a alta consideração em que o rei de Babilônia era tido. O profeta descreve sua queda do poder, figurativamente, como uma queda do céu. Então, ele chama o rei de Babilônia, também usando linguagem figurada, de "estrela da manhã".
Na sua glória, durante algum tempo, o soberano de Babilônia era como uma estrela brilhante no céu. Contudo, seu reinado e seu poder cairiam, e, mantendo as mesmas imagens, Isaías pinta sua extinção como se fora uma estrela cadente.
Uma parte da incompreensão desta passagem é resultado do aparecimento da palavra "Lúcifer" em algumas versões do v.12. A palavra hebraica é helel, que significa "estrela da manhã" e não tem nenhuma ligação com Satanás.
Aliás, "Lúcifer" é uma velha palavra latina que originalmente significava "portador da luz", e era o nome do planeta Vênus sempre que aparecia no céu matinal. Na época que esta palavra foi usada nas traduções deste versículo, "Lúcifer" não significava Satanás. Infelizmente, para muitas pessoas, hoje em dia, Lúcifer é o nome de Satanás, justamente, porque Isaías 14:12-14 é aceito, erradamente, como sendo sobre Satanás!
Agora, reparem. Não é porque os tradutores erraram, mas porque pessoas de tempos posteriores, ou esqueceram o que lúcifer significava, ou concluíram erradamente que era o nome de Satanás.
Isaías 14:13 fala da soberba e da arrogância do rei babilônico. Certa vez, ele pensou que era o maior do mundo, que tinha poder e autoridade igual à do próprio Deus. Uma das características do retrato profético de Babilônia é seu grande orgulho. Todavia, Deus rebaixaria seu rei ao mais baixo nível imaginável para a mente hebraica: ao Sheol, o reino dos mortos (v.15).
Os v.9-11 descrevem como os habitantes do Sheol ficariam surpresos porque alguém que pensava ser tão "alto" estava agora entre eles, num lugar tão "baixo".
O importante observar é que o rei de Babilônia foi do extremo da exaltação mundana até a extrema humilhação, e isto era um feito de Deus, o julgamento de Deus. A passagem toda é, portanto, um quadro, uma imagem, e não uma narrativa histórica literal.
A ênfase está no contraste entre as condições do soberano babilônico "antes" e "depois". As pessoas, então, olhariam para o fracasso do rei babilônico e perguntariam: "É este o homem que fazia a terra tremer, que sacudia reinos, que fazia do mundo um deserto, derrubava suas cidades, que não permitia aos seus prisioneiros voltar para casa?" (v.16-17).
Vemos, então, que quando examinamos Isaías 14:12-14 em seu contexto, ele não nos diz nada sobre a origem de Satanás. É uma descrição figurativa da queda do rei de Babilônia.

Outra suposta passagem sobre a origem de Satanás é:
Ezequiel 28:12-16, onde se lê: — ... Assim diz o SENHOR Deus: Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei profanado fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras.
Reparem que a referência ao Éden é, para muitas pessoas, um indicador seguro de que esta passagem tem que ser sobre a origem de Satanás. Assim, vejam, para estas pessoas não importa que Satanás já fosse o inimigo do homem no Éden! Mas, novamente, é somente aceitando que esta passagem é sobre Satanás (a própria coisa que precisa ser provada) que podemos lê-la desse modo. O contexto aqui argumenta em outra direção.
As palavras de Ezequiel nessa passagem falam a respeito do rei de Tiro. Os v.1-11 tornam isto claro. Reparem que o capítulo 27 é sobre a queda da nação, e o capítulo 28 é, especialmente, sobre a queda do rei dessa nação.
Se nós prestarmos um pouco de atenção ao contexto, veremos que tudo se esclarece! Exatamente como na passagem de Isaías, tomar as palavras do profeta como descritivas de Satanás e de sua "queda" é fazer deste capítulo um completo contra-senso.
Aqui, a mensagem está em duas partes, mas cada uma delas apresenta a mesma mensagem. Os versículos 1-10 descrevem o rei de Tiro do ponto de vista de Deus.
Reparem: Ez 28:1-10 diz — Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: (2) Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o SENHOR Deus: Visto que se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus - (3) sim, és mais sábio que Daniel, não há segredo algum que se possa esconder de ti; (4) pela tua sabedoria e pelo teu entendimento, alcançaste o teu poder e adquiriste ouro e prata nos teus tesouros; (5) pela extensão da tua sabedoria no teu comércio, aumentaste as tuas riquezas; e, por causa delas, se eleva o teu coração -, (6) assim diz o SENHOR Deus: Visto que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus, (7) eis que eu trarei sobre ti os mais terríveis estrangeiros dentre as nações, os quais desembainharão a espada contra a formosura da tua sabedoria e mancharão o teu resplendor. (8) Eles te farão descer à cova, e morrerás da morte dos traspassados no coração dos mares. (9) Dirás ainda diante daquele que te matar: Eu sou Deus? Pois não passas de homem e não és Deus, no poder do que te traspassa. (10) Da morte de incircuncisos morrerás, por intermédio de estrangeiros, porque eu o falei, diz o SENHOR Deus.
Reparem que, da mesma maneira que o rei de Babilônia, o rei de Tiro era orgulhoso, arrogante e soberbo. Ele se achava divino, e assim declarava ter uma glória que não lhe pertencia (v.2,6,9).
O profeta descreve, com ironia, a grandeza do monarca nos (v.3-5). Pela sua arrogância, o orgulhoso rei colherá o julgamento de Deus. O julgamento sobre ele é que Deus o abaterá (v.7-10).
Os v.11-19 repetem esta mensagem. O retrato irônico que o profeta faz do rei reaparece nos v.12-16. O aumento no nível de imagens e figuras na linguagem aumenta ainda mais a ironia. O rei pensava sobre si mesmo em termos absolutamente altos, mas para Deus isto era pura loucura. A referência ao Éden, no v.13, não é literal, mas significa que o rei imaginava-se privilegiado, acima de todos os outros. Ele pensava que era especial, como querubim ungido de Deus, ou como alguém que vivesse na própria montanha de Deus (v.14). Ele se retratava nos termos mais gloriosos. Pela sua arrogância, Deus o julgaria severamente (v.16-19). Novamente, portanto, quando lemos esta passagem no seu contexto, vemos que ela não tem nada a ver com a origem de Satanás.

Lucas 10:18
Em Lc 10:18, Jesus diz: — Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago.
Aqueles que pensam que Satanás é um anjo rebelde decaído acreditam que este versículo estabelece o assunto convincentemente. Contudo, de novo, precisamos olhar para esta afirmação no seu contexto.
Em Lc 10:1 e seguintes, Jesus havia enviado setenta discípulos numa missão de pregação. Realmente, era mais do que apenas uma missão de pregação, pois Jesus também os enviou para curar e expulsar demônios (v.9,17).
Agora, reparem, é importante entender exatamente o que estes setenta discípulos cumpriram, e o que o próprio Jesus cumpriu em seu ministério.
Enquanto Jesus estava nesta terra, ele guerreou contra o reino de Satanás. Antes que Jesus pudesse estabelecer seu reino (o reino de Deus), ele precisava invadir o território do inimigo, vencê-lo e tornar o inimigo (Satanás) impotente e fraco.
Isto ele fez pregando o evangelho e demonstrando visivelmente seu poder. As curas milagrosas e, especialmente, a expulsão de demônios, não eram atos casuais de bondade, elas eram, em vez disso, assaltos diretos ao reino de Satanás.
Proclamando a "libertação dos cativos" no evangelho (Lc 4:18), Jesus estava proclamando a derrota de Satanás e do pecado. Jesus veio, justamente, libertar o homem do domínio de Satanás, um domínio resumido em pecado e morte.
É no contexto desta guerra espiritual que temos de entender os milagres associados com o ministério de Jesus e, mais tarde, dos apóstolos. Os milagres eram físicos, demonstrações visíveis, exemplos, ilustrações do que Jesus pode fazer pelos homens espiritualmente.
Em nenhum lugar isto fica mais claro do que na expulsão de demônios. A possessão por demônios era uma manifestação óbvia do domínio de Satanás sobre pessoas. Que maior domínio sobre uma pessoa Satanás poderia ter do que invadir seu corpo, através de um demônio, e comandar seus atos?
Quando Jesus expulsava demônios, ele estava libertando pessoas das garras de Satanás. Ele estava destruindo o domínio do Maligno sobre elas. Era uma demonstração especialmente clara, a nível físico, do poder do evangelho, e era uma ilustração de como Jesus podia libertar os homens do reino de Satanás e colocá-los sob o reino de Deus.
A mesma coisa é verdade, também, quanto às curas milagrosas de Cristo. Doença e morte eram manifestações do poder de Satanás sobre o homem. Curando os doentes, Jesus estava livrando pessoas do poder de morte exercido por Satanás, e, assim, vencendo o maligno.
Reparem o que Jesus disse sobre a mulher que tinha uma doença causada por um espírito em Lc 13:16 — ... esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos — não deveria ela ter sido libertada, no sábado?
Jesus estava demonstrando, em suas curas milagrosas, seu poder sobre Satanás, seu poder para livrar os homens do domínio de Satanás. A cura era, portanto, uma ilustração do que Jesus pode fazer por nós espiritualmente, através do evangelho. Assim, não é coincidência que Mateus ligue as atividades de pregar o evangelho e a cura dos doentes como está em (Mt 4:23) — Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda a sorte de doenças e enfermidades entre o povo. — Vejam que estas duas atividades andavam juntas muito naturalmente.
Quando os setenta discípulos retornaram, relataram seu grande sucesso a Jesus, regozijando-se porque — ... os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! (Lc 10:17).
Jesus os havia enviado como um exército para invadir o território de Satanás e guerrear. Sua campanha tinha tido um tremendo sucesso. Satanás sofreu uma derrota com cada demônio que eles expulsaram. E, assim, Jesus respondeu com um reconhecimento (v.18-19) — Ele lhes disse: Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago. Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo, e nada absolutamente vos causará dano.
Reparem a menção de Jesus a "... sobre todo o poder do inimigo". Satanás estava sendo derrotado no ministério de Jesus. Os setenta discípulos tinham compartilhado esse ministério, e isso culminaria na maior vitória sobre Satanás: a morte e a ressurreição de Cristo que decisivamente derrotaram o poder de Satanás de pecado e de morte, respectivamente.
Assim, quando Jesus diz: "... eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago", ele estava descrevendo quão grandemente seu ministério estava derrotando o poder de Satanás sobre os homens.
O poder de Satanás não mais seria incontestável e absoluto. Em sua obra, Cristo estava destruindo o aparentemente invencível poder do pecado e da morte.
Em uma linguagem que relembra Is 14:12-14, Jesus compara o poder anterior de Satanás a uma estrela, e essa estrela agora caiu. Apocalipse 9:12 e Mateus 24:29 também usam a imagem de uma estrela cadente para descrever a derrota do poder.
Portanto, novamente, o texto que, alegadamente, prova a origem do diabo não é sobre a origem de Satanás de modo nenhum. É somente introduzindo tal idéia no texto que ele pode prestar algum serviço a tal doutrina.
Analisamos Isaías 14:12-14 e mostramos que essa passagem fala sobre a queda do rei de Babilônia. Outra passagem que supostamente falaria sobre a origem de Satanás seria Ez 28:12-16. Mas, aqui também mostramos que se trata da queda do rei de Tiro...
Agora, iremos ver Apocalipse 12:7-9...
Talvez, esta seja a passagem mais popular quando se fala sobre a origem de Satanás. Apocalipse 12:7-9 diz: — Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e os seus anjos; (8) todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. (9) E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.
Qualquer pessoa que tenha estudado um pouquinho do Livro do Apocalipse de João sabe que o Apocalipse está cheio de símbolos estranhos.
Assim, reparem que somente a pulso podemos considerar a linguagem simbólica de forma literal e, se ignorarmos o contexto, poderíamos talvez tirar uma história sobre a origem de Satanás deste texto.
O capítulo 12 de Apocalipse é uma descrição simbólica das circunstâncias espirituais que causaram a perseguição aos cristãos do primeiro século, mostrando o que os leitores de João enfrentaram.
João escreveu o Apocalipse para dar aos seus primeiros leitores uma visão de seu sofrimento, para que eles vissem o seu sofrimento num contexto mais amplo. Desta maneira, esses primeiros cristãos foram apanhados numa tremenda luta entre Deus e Satanás. O diabo estava tentando destruir a igreja, usando Roma como seu agente.
João, assim, estava dando aos seus leitores uma perspectiva de sua situação de maneira a poder ajudá-los a suportar as perseguições do Império Romano.
Assim, como uma descrição simbólica e figurativa, não devemos e não podemos ler essa passagem literalmente. Não devemos sequer tratar essa passagem como alguma espécie de narrativa cronológica e histórica do que havia acontecido.
Apocalipse 12 é, de fato, reconhecido pelos estudiosos como uma passagem difícil, mas as pessoas que vêem o livro do ponto de vista de seu contexto histórico, na sua grande maioria, concordam que ele fala sobre a vitória do povo de Deus e a derrota de seu inimigo, Satanás.
A primeira parte do capítulo (v.1-6) apresenta a história do nascimento de uma criança do sexo masculino que se torna o regente das nações. Esta imagem representa Cristo.
É uma alusão ao Salmo messiânico, Salmo 2, que diz nos (v.7-9) — Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.
E Ap 12:5 confirma isto ao dizer — Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.
Entretanto, um grande dragão (Satanás) imediatamente desafia o aparecimento de Cristo na cena. O aparecimento de Jesus desencadeia uma grande guerra espiritual (v.7). Reparem que o domínio de Satanás sobre a situação humana não havia, até agora, sido contestado.
Mas, quando Cristo aparece, o poder de Satanás sobre o homem é efetivamente destruído, e Satanás sofre uma derrota esmagadora (v.9).
A história básica que João apresenta aqui (v.7s) é que Satanás perdeu sua tentativa de ganhar domínio sobre a humanidade. E as suas forças não são adversárias para Deus e seus exércitos. Ele não pode derrotar Deus e seu Filho. Numa grande destruição, Satanás é lançado abaixo, simbolizando sua ruína.
Que Satanás tenha sido atirado à terra é, de fato, algo significativo. É uma mudança na frente de batalha. Desde que Satanás não pôde derrotar Deus no reino espiritual, ele então volta sua atenção para o reino físico, onde ele espera ser vitorioso.
Reparem que é a mesma batalha pelo domínio espiritual, mas agora é uma batalha espiritual travada na terra. Agora, em vez de tentar destruir o Filho de Deus (tentativa que fracassou), Satanás tenta destruir o povo de Deus que vive na terra.
Satanás inunda, então, a terra com suas mentiras, enganos, tentações, e todo tipo de artimanhas, em seu esforço para destruir o povo de Deus, mas isto também fracassa conforme podemos ver nos (v.11,17) que dizem — (11) Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida... (17) Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; e se pôs em pé sobre a areia do mar.
Desta forma, não resta dúvida de que Ap 12:7-9 é sobre como Satanás foi derrotado esmagadoramente pelo advento e pela obra de Jesus Cristo. João escreveu isto para encorajar seus leitores que estavam sofrendo por causa do ataque de Satanás através de um poder mundial perverso, o poder do Império Romano. Eles poderiam suportar se soubessem que a vitória final seria deles.
Reparem que para aqueles primeiros cristãos, conhecer a origem de Satanás não teria efeito nenhum para encorajá-los a perseverar na fé, no meio das provações e das perseguições.
E agora? Vocês devem estar perguntando: Então, donde veio Satanás? Qual a sua origem?
Se nenhuma das passagens que são comumente citadas como relatos da origem de Satanás são realmente sobre sua origem, então donde ele veio?
Bem, estou certo de que a Bíblia não revela a resposta para nós exatamente. Podemos ter uma curiosidade sobre o assunto. É natural. Mas, temos que nos policiar para não permitir que tal curiosidade nos leve a encontrar respostas onde elas não se encontram.
O melhor que podemos fazer, eu penso, é deduzir umas poucas coisas sobre Satanás:
Primeiro, somente Deus (o Altíssimo) é incriado. Tudo o mais e todos no universo são criados. Portanto, Satanás é um ser criado. A Bíblia, em nenhum lugar diz que ele é um ser eterno como Deus.
Segundo, a Bíblia atribui onipotência somente a Deus (o Soberano). Portanto, Satanás não é um ser onipotente. Ainda que ele tenha grandes poderes. Deus, inclusive, limita o uso desses poderes conforme lemos em (1 Co 10:13) — Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.
Terceiro, há seres que foram feitos e que existem acima do nível humano. Podemos chamá-los seres espirituais por falta de um termo melhor. Entre estes seres espirituais estão os anjos, mas estes, aparentemente, não são os únicos tipos de seres espirituais, conforme Ef 6:12 — porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
A respeito desta ordem de seres, conhecemos mais sobre anjos do que os outros seres celestiais. O quadro que obtemos pela palavra de Deus é que os seres espirituais estão interessados em assuntos da terra e, às vezes, são até envolvidos neles.
Por exemplo, anjos mediaram a Lei de Moisés (Gálatas 3:19), anjos anunciaram a ressurreição de Cristo (Mateus 28:5), e anjos desejaram ver o cumprimento do plano de Deus de salvação (1 Pedro 1:12).
Quarto, embora isso possa ser uma especulação, também parece que seres espirituais, embora sejam criados, entretanto não são ligados em sua existência pelas limitações de tempo ou de idade.
A Bíblia em lugar nenhum identifica Satanás como um ser humano. Ele é, obviamente, um dos seres espirituais sobre os quais lemos na Bíblia.
Agora, reparem: Isto não quer dizer que Satanás seja um anjo. De fato, teria sido muito fácil, em qualquer dos contextos e para qualquer dos escritores, dizer que Satanás era um anjo, mas eles nunca disseram isso.
Satanás é, de fato, um ser espiritual, e a Bíblia o descreve como, entre outras coisas, "o príncipe da potestade do ar" (Ef 2:2). Vemos Satanás, pela primeira vez, no Jardim do Éden (Gênesis 3), justamente no começo da história humana, e ele tem existido continuamente desde então.
Quinto, os seres espirituais, como os seres humanos, têm vontade. Judas descreve o castigo dos anjos rebeldes no (v.6) de sua epístola, e Pedro fala de anjos pecando em 2 Pedro 2:4. Portanto, Satanás se opõe a Deus porque ele decidiu fazer isso.
Deus, certamente, não criou Satanás para o mal, ou como um ser mau, pois a Bíblia nos diz claramente que não há mal associado com Deus (Tiago 1:13; 1 João 1:5).
Parece, portanto, que o máximo que poderíamos dizer sobre a origem de Satanás é que ele é um ser criado, mas espiritual, que decidiu se opor a Deus, e que ele recruta outros seres espirituais e, também, seres humanos para guerrearem contra Deus.
Mais do que isto é só especulação. Desta forma, num sentido muito significativo, não importa de onde Satanás veio. A ênfase na Bíblia cai, isto sim, no que ele faz. Não é como ele veio a existir que preocupa. O que preocupa é o fato de que ele existe. Ele continua a trabalhar contra nós em sua tentativa de dominar a humanidade...
Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Ef 6:10-12).
Rev. Augustus Nicodemus (adaptado para o estudo por Rev. Pedro Corrêa Cabral).

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Quem sou eu

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Sou pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, mestrando em Divindade (Magister Divinity), pelo CPAJ (Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper). Sou também professor de História da Igreja, de Introdução Bíblica, e Cartas Gerais, na Escola Teológica Rev. Celso Lopes, em Maceió AL. Além disso, sou coronel-aviador da Força Aérea Brasileira, já reformado.

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